É de manhã É de madrugada É de manhã Não sei mais de nada É de manhã (É de Manhã - Caetano Veloso)
- Se analisarmos atentamente o excerto anterior - até porque só temos isso até aqui (¬¬) -, perceberemos uma gradação interessante. "Como um todo, há uma relativa inconsistência contextual do eu-poemático em relação ao extrínseco, dado que a impressão temporal apresentada não tem, explicitamente, um expediente sensorial. Não pelo pipitar sincopado dos pássaros, pela pantomima aveludada que os ventos imprimem sobre a vegetação que fulgi à luz do sol brotando da siririca das águas, na linha de um horizonte efluvioso... Ou pelo piscar do fogo que perpassa a jarra do leite matinal, perfunctório. Mas porque, simplesmente, 'é de manhã'. "E então, nos dois versos seguintes, o eu-lírico materializa a anterior indistinção, justificando-a à imagem de seu universo interior. Dessa forma, com a intercalação da 'madrugada' entre as manhãs, percebemos o sensório confuso; uma consternação de limites, que atinge o pandemônio, o rebuliço, no quarto verso. "Assim, o trecho tange o ultrarromantismo, fazendo menção ao desinteresse e apresenta-se egocêntrico, pessimista, lembrando Álvarez de Azevedo no poema 'Idéias íntimas', quando diz 'Os meus olhos ardentes se escurecem / E no cérebro passam delirosos / Assomos de poesia...'. "Ou podemos citar até mesmo Charles Lutwidge Dodgson, que no pseudônimo de Lewis Carroll, descreve Alice entrando pela toca do coelho numa queda longa por entre luzes e objetos flutuantes... Grande metáfora da passagem para o inconsciente... "Concluímos então a natureza onírica ou até mesmo etílica das divagações do eu-lírico, e... - Felipe... - Oi ? - Para. - Mas eu... - Sssshhhh ! - Ma... - Nãnãnãnãnãnã !! - ...