Eu estava na plataforma de uma estação de metrô. Nesse frio até que é um bom lugar pra se ficar, tirando o fato de que uma plataforma de metrô não foi feita pra se ficar, mas pra deixá-la lá lálálá... lálá. Se bem que pensando por aí, calçadas não foram feitas como um espaço pra se encher de mesas e cadeiras, os elementos imprescindíveis juntos da falação agitada e alta das happy hours; o Google Earth não foi feito pra você achar a sua casa (a felicidade mais efêmera que existe), por mais que você - teoricamente - já saiba onde fica há tempos; enfim... Vem da criatividade achar outras funções pras coisas e eu ficaria lá na estação numa boa, mas tinha compromisso.
O trem chegou. Até que não estava muito cheio, mas tive que ficar de pé. Sentada na cadeira bem diante de mim, uma senhora.
Logo veio aquele planejamento rápido de quem sabe que o trem vai enchendo conforme passam as estações: onde ficar pra que eu tenha um jeito relativamente fácil de ter pra onde ir depois. Decidi ficar ali mesmo.
Então lembrei que esqueci de pôr um punhado de papel higiênico no bolso de trás da calça.
Aquele catarro vinha me incomodando há uns dias. Ali estava bem naquele estágio em que chego a sentir inveja da respiração regular dos outros e saudades da minha. Mas não era algo pleno, porque ainda me sobrava uma narina - numa luta quase injusta de força gravitacional versus status socio-higiênico - mas ainda uma.
Resfriado. Hepatite, caxumba, sarampo, catapora, hidrofobia, dengue, febre amarela, poliomielite, rubéola, meningite, encefalite, herpes, pneumonia ? Não. Resfriado ? Catarro ? Sim. E agora estou com o nariz e peito cheios desse quase-paradoxo imunológico. Só porque tem muito e não incomoda tanto é que tá em todo lugar, é isso ? Veja bem qual o tamanho do "incômodo" nessa frase, porque as pessoas estão entrando no trem, como eu previa, e tenho que tirar a mochila das costas pra dar mais espaço, além de ter que me segurar nessa barra. Agora o incômodo do catarro aumentou um pouquinho. Ah... @#$%& tem a véia sentada aqui na frente... E ELA TÁ OLHANDO !!!
Agora o incômodo atingiu um tamanho colossal, um patamar etéreo. Porque não se trata mais de algo meu comigo mesmo, mas envolve mais alguém, e isso significa que não tenho controle absolutamente nenhum da situação. Mas vou treinar um anto-enganozinho até chegar a minha estação. E a véia não para de olhar. Claro que não... Tem uma visão privilegiadíssima de uma parte de mim que eu não vejo e nem quero ver, e está fazendo questão que vê. Talvez seja por isso que estou tão puto com a senhora, não é mesmo ? Ela me vê, e eu não posso vê-la porque teria que olhar pra baixo, e seria o mesmo que dar bônus de força à gravidade contra a minha única narina atual, que perderia com brio (com todos os sentidos que essa palavra pode assumir). Estou imobilizado pelas pessoas à minha volta, pela minha mochila e pelo desejo de não cair, que ocupa minha outra mão.
Como será que está meu catarro ? Claro que a janela de Murphy diante de mim, por definição, está aberta e me impede de ver.
No momento, percebo que minha única narina está cedendo, porque minhas vias nasais são uma grande obstrução. Minha inspiração é puro catarro. Por extensão, todo esse ar a minha volta é puro catarro. Então me vejo nesse metrô... Túnel viscoso, trem-perdigoto nessa viagem-espirro. Velha maldita.
Não sei se pelo calor bacanal de tanta gente junta, meu alien vai se soltando, todo maroto. E é nessa hora que o problema ganha abrangência: vai chegar no lábio ou não ? Pelo menos pra mim, essa situação é a mais injusta, porque só é percebida quando já aconteceu. O único que não percebe o poder transgressor do catarro é o dono dele. Se estou tão preocupado assim, meu nariz ainda é o local da narrativa.
Minha senhora, tá olhando o que ? O catarro não escorreu ainda. Ainda ! Eu disse ainda !! Essa palavra não existe aqui, entendeu ?! Assim como o catarro escorrendo. Não existe. E se a senhora dá tanta atenção a algo bem diante de você, que não existe, a senhora é LOUCA !!! ESQUIZOFRÊNICA !!! Agora ponha o pé no chão, que vou te perguntar: nunca viu não ? Catarro ? Nunca peidou na vida, minha senhora ? Não me venha com essa cara de "ai-que-grosseria" porque pela sua idade, já peidou mais que o triplo que eu na vida !
Mas eu entendo você. Tanto que se estivéssemos de lugares trocados, ah... Eu não pararia de olhar nunca, e torceria a favor da sucumbência dessa sua blusa de pele, calça de couro, botas, brincos, maquiagem, perfume e cabelos, esse conjunto que custa a sua auto-estima, o olho da cara, horas do seu dia e a sua ilusão de segurança diante dos outros. Tudo sendo ofuscado pelo brilho denso e visceral de uma cachoeira selvagem e primitiva avançando impassível pro chão-mar onde jás tantas outras. Ah, sim !!! PARA DE OLHAR, VELHA FILHA-DA-PUTA !!! Se não eu escarro todas as gotas de catarro esquizofrênico em cima de você ! Viu como tenho certo poder na situação ? Fica pianinha aí...
E pela milésima vez curvo minha cabeça pra cima, dando um lugar mais privilegiado à velha nessa plateia que vê meu show. Acho que o primeiro a dar tanta atenção ao céu estava com um resfriado dos meus.
Enfim chega a minha estação. Me liberto dessa prisão, adeussenhora, e já a caminho do lixo estou na iminência de desfazer-me brusco em ruídos e...
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
Concordo com Drummond, mas devo dizer que certas coisas são pontuais, insubstituíveis:
Catarro, catarro, catarro - o visco radiante
que me dá, pelo espirro, a explicação do mundo.
(Conto baseado no livro Tanto Faz - texto 11; de Reinaldo Moraes)
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terça-feira, 17 de maio de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
O ponto de vista da conveniência
Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem
Essa moça tá diferente (...)
Essa moça é a tal da janela
Essa moça é a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora está só na dela
Botando só pra quebrar
Mas o tempo vai (...)
(Essa moça tá diferente; Chico Buarque de Holanda)
Por favor, alguém avise Chico Buarque que ele tomou um pé na bunda.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Tá, e daí ?
Outro dia eu estava procurando uma palavra no dicionário, e bati o olho numa outra palavra ali próxima. Acabei descobrindo uma coisa sobre algo que eu - e, com certeza, muitas, mas muitas outras pessoas - convivemos durante praticamente a vida toda.
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
na rua dos bobos numero zero
(A Casa - Vinícius de Moraes)
A descoberta ? É esmero /ê/, e não esmero /é/. Só pra rimar mesmo. Taí o Vininha fazendo do jeito dele.
Mas logo que vi isso, me lembrei que ele não foi o primeiro a fazer isso:
Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve, não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve
(Seja Breve - Noel Rosa)
Nessa aí a manha é controle /ó/. Mais uma vez, só pra rimar. (E com certeza reflete o ambiente bem boêmio onde ele compunha na maioria das vezes; meio
chapado e "foda-se, vai assim mesmo") Taí o Poeta da Vila pra comprovar. A primeira gravação dessa música foi em 1933.
Mas o Vinícius não foi o último a fazer isso:
Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
(Meu Caro Amigo - Chico Buarque / Francis Hime)
E finalmente nessa, ele canta rock'n'roll /ó/. Composta em 1976.
Puta merda, esse post ficou com uma carinha de documentariozinho que tenta te convencer de que aquilo tudo tem alguma importância, com o argumento "Ah, ninguém faria um trabalho desses pra nada, certo ?"; com aquela lógica "Stevie Wonder é Deus".
É isso mesmo, você chegou ao final do texto.
Pelo menos você conheceu algumas músicas. Não ? Já conhecia as três ? Ah... Pelo menos você sabe quando elas foram compostas, então. Você pode puxar papo no metrô com o que leu aqui. Quem puxa papo no metrô ? Normalmente idosos, porque todo o resto tem fones nos ouvidos. Pode ser no ponto de ônibus ou no ônibus, então. Mas, por favor, não puxe papo com alguém de quem você esteja afim. Que proveito a pessoa tiraria de saber como se fala "esmero" ? Quer saber ? QUE TIPO DE PESSOA GOSTARIA DE SABER ALGO ASSIM !? QUER O QUE !? ESNOBAR !? IMBECIL !!!!
(...)
É... perdeu o seu tempo.
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
na rua dos bobos numero zero
(A Casa - Vinícius de Moraes)
A descoberta ? É esmero /ê/, e não esmero /é/. Só pra rimar mesmo. Taí o Vininha fazendo do jeito dele.
Mas logo que vi isso, me lembrei que ele não foi o primeiro a fazer isso:
Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve, não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve
(Seja Breve - Noel Rosa)
Nessa aí a manha é controle /ó/. Mais uma vez, só pra rimar. (E com certeza reflete o ambiente bem boêmio onde ele compunha na maioria das vezes; meio
chapado e "foda-se, vai assim mesmo") Taí o Poeta da Vila pra comprovar. A primeira gravação dessa música foi em 1933.
Mas o Vinícius não foi o último a fazer isso:
Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
(Meu Caro Amigo - Chico Buarque / Francis Hime)
E finalmente nessa, ele canta rock'n'roll /ó/. Composta em 1976.
Puta merda, esse post ficou com uma carinha de documentariozinho que tenta te convencer de que aquilo tudo tem alguma importância, com o argumento "Ah, ninguém faria um trabalho desses pra nada, certo ?"; com aquela lógica "Stevie Wonder é Deus".
É isso mesmo, você chegou ao final do texto.
Pelo menos você conheceu algumas músicas. Não ? Já conhecia as três ? Ah... Pelo menos você sabe quando elas foram compostas, então. Você pode puxar papo no metrô com o que leu aqui. Quem puxa papo no metrô ? Normalmente idosos, porque todo o resto tem fones nos ouvidos. Pode ser no ponto de ônibus ou no ônibus, então. Mas, por favor, não puxe papo com alguém de quem você esteja afim. Que proveito a pessoa tiraria de saber como se fala "esmero" ? Quer saber ? QUE TIPO DE PESSOA GOSTARIA DE SABER ALGO ASSIM !? QUER O QUE !? ESNOBAR !? IMBECIL !!!!
(...)
É... perdeu o seu tempo.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Eu tive um futuro promissor
É natural e espontâneo. Homem de visão ingênua e instintiva e se entrega à infinita variedade de sensações. Para ele o real é a própria exterioridade, alegando que não se deve acrescentar às coisas nada de subjetivo; poesia é ver.
O que penso eu do mundo ?
Sei lá o que penso do mundo !
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas ?
Que opinião tenho sobre as causas e efeitos ?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo ?
Não sei. (Alberto Caeiro)
E eu a vida inteira induzido a acreditar que "Porque não." não é resposta...
O que penso eu do mundo ?
Sei lá o que penso do mundo !
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas ?
Que opinião tenho sobre as causas e efeitos ?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo ?
Não sei. (Alberto Caeiro)
E eu a vida inteira induzido a acreditar que "Porque não." não é resposta...
domingo, 20 de junho de 2010
No dia seguinte alguém morreu
Se ele era muito isso, muito aquilo, eu não sei. Na verdade, pouco sei. Muito pouco. E "muito pouco" ainda considero hipocrisia. Só sei que ouvia dos outros a respeito dele. E acho que não seria bom pra mim fazer da morte um motivo de idolatria. Seria nada mais que idealização. E a pior de todas, que só aumenta sem motivo.
Então, justamente por não conhecê-lo fiz questão de tentar tirar proveito de coisas tão pequenas. Sem idealização ou imitação. Apenas o imaginando como alguém de tantas frases, tentando entendê-las enquanto as diz, como eu e qualquer um fazemos tantas vezes. Frases por frases não levam a nada. Faço delas algo sobre o que pensar. Posso até concordar ou negar, desde que critique. Que a idolatria nasça longe da morte.
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."
"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."
"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos ?"
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não."
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar."
"Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo."
(Trecho de Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago)
Então, justamente por não conhecê-lo fiz questão de tentar tirar proveito de coisas tão pequenas. Sem idealização ou imitação. Apenas o imaginando como alguém de tantas frases, tentando entendê-las enquanto as diz, como eu e qualquer um fazemos tantas vezes. Frases por frases não levam a nada. Faço delas algo sobre o que pensar. Posso até concordar ou negar, desde que critique. Que a idolatria nasça longe da morte.
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."
"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."
"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos ?"
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não."
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar."
"Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo."
(Trecho de Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago)
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Lição de Casa
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Rachel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Rachel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida !
(Sonetos - Luís Vaz de Camões)
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer quem ama a quem ama. Quantas coisas há no mundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama, haviam de ser muito aborrecidas ! Graças logo ao engano e não ao amor. Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão, e ao cabo deles, em vez que lhe darem a Rachel, deram-lhe a Lia. Ah enganado pastor e mais enganado amante ! Se perguntarmos à imaginação de Jacó por quem servia, responderá que por Rachel. Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há de ser, dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não servis por quem cuidais. Cuidais que vossos trabalhos e os vossos desvelos são por Rachel, a amada, e trabalhais e desvelais-vos por Lia, a aborrecida. Se Jacó soubera que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias. Serviu logo ao engano e não ao amor, porque serviu para quem não amava. Oh quantas vezes se representa esta história no teatro do coração humano, e não com diversas figuras, se não na mesma ! A mesma que na imaginação é Rachel, na realidade é Lia; e não é Labão o que engana a Jacó, senão Jacó o que se engana a si mesmo. Não assim o divino amante, Cristo. Não serviu por Lia debaixo da imaginação de Rachel, mas amava a Lia conhecida como Lia. Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor, nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos, e por cada um, não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo, sabendo que era inimigo; pelo ingrato, sabendo que era ingrato; e pelo traidor, sabendo que era traidor.
Deste discurso se segue uma conclusão tão certa como ignorada: é que os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há; porque amam as coisas, não como são, senão como as imaginam; e o que se imagina, e não é, não há no Mundo. Não assim o amor de Cristo, sábio sem engano.
(Sermão do mandato - Padre Antônio Vieira)
Labão, pai de Rachel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Rachel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida !
(Sonetos - Luís Vaz de Camões)
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer quem ama a quem ama. Quantas coisas há no mundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama, haviam de ser muito aborrecidas ! Graças logo ao engano e não ao amor. Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão, e ao cabo deles, em vez que lhe darem a Rachel, deram-lhe a Lia. Ah enganado pastor e mais enganado amante ! Se perguntarmos à imaginação de Jacó por quem servia, responderá que por Rachel. Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há de ser, dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não servis por quem cuidais. Cuidais que vossos trabalhos e os vossos desvelos são por Rachel, a amada, e trabalhais e desvelais-vos por Lia, a aborrecida. Se Jacó soubera que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias. Serviu logo ao engano e não ao amor, porque serviu para quem não amava. Oh quantas vezes se representa esta história no teatro do coração humano, e não com diversas figuras, se não na mesma ! A mesma que na imaginação é Rachel, na realidade é Lia; e não é Labão o que engana a Jacó, senão Jacó o que se engana a si mesmo. Não assim o divino amante, Cristo. Não serviu por Lia debaixo da imaginação de Rachel, mas amava a Lia conhecida como Lia. Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor, nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos, e por cada um, não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo, sabendo que era inimigo; pelo ingrato, sabendo que era ingrato; e pelo traidor, sabendo que era traidor.
Deste discurso se segue uma conclusão tão certa como ignorada: é que os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há; porque amam as coisas, não como são, senão como as imaginam; e o que se imagina, e não é, não há no Mundo. Não assim o amor de Cristo, sábio sem engano.
(Sermão do mandato - Padre Antônio Vieira)
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Perfeitos, cortemos nossos pulsos !
O pulso ainda pulsa
Peste bubônica, câncer, pneumonia
Raiva, rubeola, tuberculose, anemia
Rancor, cisticircose, caxumba, difteria
Encefalite, faringite, gripe, leucemia
O pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
E o corpo ainda é pouco
Assim...
Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia
Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie, câimbra, lepra, afasia
O pulso ainda pulsa
O corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Assim...
(O Pulso - Arnaldo Antunes)
A Humanidade é humana.
A Humanidade é doente.
A Humanidade é suicida.
Peste bubônica, câncer, pneumonia
Raiva, rubeola, tuberculose, anemia
Rancor, cisticircose, caxumba, difteria
Encefalite, faringite, gripe, leucemia
O pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
E o corpo ainda é pouco
Assim...
Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia
Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie, câimbra, lepra, afasia
O pulso ainda pulsa
O corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Assim...
(O Pulso - Arnaldo Antunes)
A Humanidade é humana.
A Humanidade é doente.
A Humanidade é suicida.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Comunhão
When I heard the learned astronomer
Quando ouvi o douto astrônomo
Quando me apresentaram em colunas as provas e os algarismos
Quando me assinalaram os mapas e os diagramas para medir, para dividir e somar
Quando desde a minha cadeira ouvi o astrônomo que dissertava muito aplaudido na cátedra
Quão subitamente me senti aturdido e enfastiado
Até que esgueirando-me para fora me afastei sozinho
No úmido ar místico da noite e de tempo em tempo
Olhei em perfeito silêncio as estrelas.
(Walt Whitman)
Quando ouvi o douto astrônomo
Quando me apresentaram em colunas as provas e os algarismos
Quando me assinalaram os mapas e os diagramas para medir, para dividir e somar
Quando desde a minha cadeira ouvi o astrônomo que dissertava muito aplaudido na cátedra
Quão subitamente me senti aturdido e enfastiado
Até que esgueirando-me para fora me afastei sozinho
No úmido ar místico da noite e de tempo em tempo
Olhei em perfeito silêncio as estrelas.
(Walt Whitman)
sábado, 3 de outubro de 2009
O "segundo Édson Luis"
Brasil, São Paulo, 3 de outubro de 1968. Ditadura Militar.
O ar preenchido de pedras destinadas, carros incendiados, molotovs, potes de ácido sulfúrico para derreter carne, armas de fogo, emanação de caos, preconceito, cegueira e estupidez. Assim estava a rua Maria Antônia, cenário da Batalha da Maria Antônia, conflito entre estudantes e que também culminou, no mesmo dia, no primeiro conflito entre os estudantes e a polícia.
No final da tarde morre José Guimarães, um estudante secundarista de 20 anos de idade.
O ar preenchido de pedras destinadas, carros incendiados, molotovs, potes de ácido sulfúrico para derreter carne, armas de fogo, emanação de caos, preconceito, cegueira e estupidez. Assim estava a rua Maria Antônia, cenário da Batalha da Maria Antônia, conflito entre estudantes e que também culminou, no mesmo dia, no primeiro conflito entre os estudantes e a polícia.
No final da tarde morre José Guimarães, um estudante secundarista de 20 anos de idade.
Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri certeza absoluta.
(Albert Einstein)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A relatividade das coisas
Uma forma de comunicação entre os presos - que além de trocar informações faziam críticas, liam trechos de livros e cantavam - era a Rádio Libertadora, que funcionava à noite, depois que os presos voltavam aos seus cubículos. Gritavam na grade da porta e os outros ouviam de suas celas. Quando o Barão entrou, foi um zunzunzum, todo mundo pedindo que o Barão falasse na Rádio Libertadora. E ele falou, para alegria geral, segundo Graciliano conta no livro Memórias do Cárcere e vários presos lembravam muito tempo depois.
- Tudo vai bem. Não há motivo para receio. O que pode nos acontecer ? Somos postos em liberdade ou continuamos presos. Se nos soltam, ótimo: é o que desejamos. Se ficamos presos, deixam-nos com processo ou sem processo. Se não nos processam, ótimo: faltam provas e aí, cedo ou tarde nos mandam embora. Se nos processam, seremos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvem, ótimo: nada melhor, esperávamos isso. Se nos condenam, nos darão uma pena leve ou pena grande. Se for leve, ótimo: descansaremos algum tempo sustentados pelo governo, depois iremos para a rua. Se for pena grande, seremos anistiados ou não. Se formos anistiados, ótimo: é como se não tivesse havido condenação. Se não nos anistiarem, cumpriremos a sentença ou morreremos. Se cumprirmos a sentença, ótimo: depois voltaremos para casa. Se morrermos, iremos para ó céu ou para o inferno. Se formos para o céu, ótimo: é a suprema aspiração de cada um. Se formos para o inferno, não há porque nos alarmarmos: é uma desgraça que pode acontecer com qualquer um, preso ou em casa.
- Tudo vai bem. Não há motivo para receio. O que pode nos acontecer ? Somos postos em liberdade ou continuamos presos. Se nos soltam, ótimo: é o que desejamos. Se ficamos presos, deixam-nos com processo ou sem processo. Se não nos processam, ótimo: faltam provas e aí, cedo ou tarde nos mandam embora. Se nos processam, seremos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvem, ótimo: nada melhor, esperávamos isso. Se nos condenam, nos darão uma pena leve ou pena grande. Se for leve, ótimo: descansaremos algum tempo sustentados pelo governo, depois iremos para a rua. Se for pena grande, seremos anistiados ou não. Se formos anistiados, ótimo: é como se não tivesse havido condenação. Se não nos anistiarem, cumpriremos a sentença ou morreremos. Se cumprirmos a sentença, ótimo: depois voltaremos para casa. Se morrermos, iremos para ó céu ou para o inferno. Se formos para o céu, ótimo: é a suprema aspiração de cada um. Se formos para o inferno, não há porque nos alarmarmos: é uma desgraça que pode acontecer com qualquer um, preso ou em casa.
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