domingo, 15 de setembro de 2013

O cara do Carandiru

Ontem à noite eu estava pra entrar na Fnac da Trianon, e vi uma mão estendendo uma revista, naquele gesto que sempre imagino sendo o corpo em desespero velado. À medida em que eu olhava pra direita, e o desespero - sempre velado - daquela mão aumentava, era então um braço e então um homem. Um homem
muito simples.
Pus a mão "em espanto", dizendo "não, obrigado" a ele.
É inimaginável em quantas frações o tempo pode se decompor, mas acredito que na menor delas, que veio logo em seguida disso, descendo a escada, me senti um idiota. Eu sempre me disse pra pegar o que essas pessoas oferecem, por mais que não me interesse. Porque é inevitável que pelo menos alguns (se não a maioria) que pegam esses papeis não estejam nem aí pro que está escrito neles. O papel publicitário dos que entregam vai por água abaixo em muitos casos. Então sim, eu só pego o papel pra que aquela pessoa se sinta mais perto de terminar seu dever.
E mesmo assim eu não peguei aquele papel. Mas o que me deixou mais puto foi eu estar com uma pasta. Uma pasta! Todas as desculpas preguiçosas que o meu auto-engano seria capaz de me dar desapareceram. "Seu idiota, por que não pegou aquela revista?"
Naquela mesma fração de tempo, pensei "na volta eu pego, porque eu vou sair por aqui mesmo".
Agora aquele homem estava à minha esquerda, um piso acima de mim (e acima de mim, que sou um idiota, porque não?). As pessoas ali à minha frente, passando por ele ("porque vocês não pegam a revista, seus imbecis!"), e o mesmo braço estendido, o mesmo desespero velado. Não, não, estou quase aí.
Passei olhando pra ele e pegando a revista. Porque era só pegar, certo? Não, não era. Ainda bem.
Nós dois com as mãos em pontas opostas da revista, ele me disse "conhece a revista?"; eu tinha quase certeza de que uma vez, no vão do MASP, recebi uma daquelas das mãos de um outro homem que me parecia muito alheio aos outros, talvez por isso, feliz. Mas disse "não, não conheço". Nesse momento eu quase pude pegar aquele desespero velado, mas se transformou em algo diferente, etéreo e bom, de uma fração de tempo - daquelas - pra outra. "é de uma organização que cuida de moradores de rua. Você paga 4 reais e eu fico com 3". Eu fui pegando o dinheiro, e pensando no que perguntar pra ele, porque (e essa não é a primeira vez que sinto isso) me veio uma vontade de saber sobre aquele cara. Afinal, ele foi morador de rua em algum momento da vida pra estar ali na minha frente com aquela revista.
"E como que você conheceu esse projeto?" enquanto pensava se a aparência dele era de alguém de 65 anos ou de alguém de 40 que viveu um bom tanto na rua. "Eu fiquei 32 anos no Carandiru". Nessa hora, vi o quanto idiota eu ainda poderia me sentir. De alguma forma fiquei minúsculo na frente daquele cara. Imaginando que certamente ele venceu muito mais do que eu, e muito mais do que muita gente que eu conheço; isso que me diminuiu tanto, porque qual é a minha noção de vitória, de conquista individual até então? Ridículo. Me senti ridículo, e senti que o meu mundo, de alguma forma, é algo que flutua por aí e às vezes esbarra no topo da minha cabeça, mas fora aquele momento, eu flutuo junto.
"Cumpriu a pena toda?", sorrindo, e que sorriso! ele disse "cumpri. Foi esse cara da capa que me interpretou no filme". Nossa, como eu sou absurdo! Eu sou um exagero, é isso o que eu sou! "E como que você veio parar aqui?" uma vontade imensa de perguntar muitas outras coisas que eu só vi em livros, de forma muito "elegante", me veio. "Depois do Carandiru, fui morar na rua" e o sorriso continuava. Esse cara deve saber o que é ser feliz, ah deve. Esse monte de diplomas discutindo a felicidade pelas academias afora... que bando de alienados! Como que pode isso?!
Eu queria perguntar pra ele se a cadeia realmente funciona ou se piora as coisas; como que foi o Drauzio por lá; se ele já leu o livro do Carandiru; o que ele acha de a cadeia ter função de "reintegração social" sendo que um cara que sai dela vai morar na rua...
"Eu tenho um blog. Tem o endereço aqui, ó... Entra lá, escrevo todo dia" olha só que maravilha!
"Opa! Pode deixar que entro, sim! Tem textos seus na revista?"   "Tem, tem sim"   "Meus parabéns..." Eu precisava muito saber o nome dele, e olhei na camiseta: José Aguiar "... José, meus parabéns."
Um tapinha de empolgação dele no meu ombro, um aperto de mãos.
Eu volto lá logo. Ainda quero fazer umas perguntas.
"Seu José, o senhor é feliz?"

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