- ...então, turma, a partir de Memórias Póstumas, pode-se notar uma mudança nas características tradicionais da fase pré-realista. O enredo fica agora em segundo plano, a história é composta de pequenos acontecimentos, de forma que não é mais possível fazer um romance de fatos, como anteriormente; o que mais conta agora são as reflexões do personagem, que mostram seu caráter, no caso, mão-de-vaca, com ares de grandeza, despreza os pobres, é preconceituoso, etc. O romance agora é de análise psicológica. Machado, através de Brás Cubas, mostra uma visão de mundo cheia de pessimismo e ceticismo.
E então o professor escreve "Pessimismo" e "Ceticismo" na lousa.
- É importante ressaltar também o quanto a sociedade é apresentada como completamente hipócrita a todo momento. É como se um amigo seu, numa sexta-feira à noite, te ligasse e te chamasse pra ir na festa de aniversário da filha dele, de 6 anos, sendo que você odeia festa de criança. Você não vai recusar porque odeia esse tipo de coisa e ainda reclamar que a pessoa ligou numa sexta-feira à noite só pra fazer um "convitezinho" desses, certo ? Muito pelo contrário, mesmo recusando, você vai agradecer pelo convite, e dizer que gostaria muito de ir, mas que não poderá comparecer. É a hipocrisia. O autor, mesmo depois de morto, tenta amenizar a verdadeira situação de seu enterro, dando desculpas para o leitor. O narrador mente, portanto, não é confiável. E...
- Professor... ?
- Pode falar.
- O que seria ceticismo ?
- Ah, desculpe, eu deveria ter explicado.
(...)
Viva Machado !
quarta-feira, 30 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Pois não ?
Por toda a minha vida convivi com certas coisas sem perceber que não fazem sentido nenhum. (Pra entender essa última frase - que na verdade é a primeira - talvez seja necessário apelar pra regra de sinais: menos com menos é mais; se bem que aí uma das possibilidades seria algo como "sem perceber que fazem todo o sentido" e não fazem todo o sentido. Muito pelo contrário. Tá entendendo ? Não... ?)
Estou me referindo a algumas frases do nosso dia-a-dia. Frases tão enraizadas que se tornam normais. Mesmo que de normal não tenham nada:
Você chega ao médico, pra uma consulta, e recebe a pergunta: "Está tudo bem ?"
Quando aquele ser humano chegou à conclusão de que essa pergunta faria algum sentido numa situação daquelas !? "Não, doutor ! Se estivesse tudo bem, eu não estaria aqui !" ou "Melhor agora, que vou fazer exame retal ! Que maravilha !" ¬¬ (Tá. Exagerei.Ele está sendo educado; a pergunta não tem esse sentido. Exame retal não é tão ruim) =P Ah, e nunca faça essa pergunta a algum familiar do defunto no velório. E não decida paquerar ninguém num velório com a famosa "Vem sempre aqui ?"... Não funciona, garanto... Só se a pessoa trabalhar lá... õô
E quando você atende o telefone e perguntam "Quem gostaria ?" ?
Olha, não sei se todo mundo gosta de ligar pro banco, por exemplo. Ou pra Receita Federal, ou pra algum serviço de atendimento ao consumidor. Eu não gosto. Se gostasse, certamente ligaria com mais frequência, e ficaria, quem sabe, horas ao telefone. Mas por vontade própria, e não ouvindo uma musiquinha de elevador. (Não que música de elevador seja ruim, porque sei que toca jazz em certos elevadores, mas... ah... deu pra entender.)
Você chega ao balcão da padaria e pergunta: "Me vê um sonho ?"
Sabe, se eu fosse a pessoa atrás do balcão, ficaria olhando pra pessoa... olhando, olhando... até que ela me perguntasse "O que foi ?" e eu respoderia, ainda mais se fosse uma mulher "A senhora é muito bonita, mas não posso fazer de você um sonho." E se ela fosse sempre lá, aí... ¬¬
Toda vez que eu chego em casaa barata da vizinha tá na minha cama, e minha mãe chega depois, me pergunta: "Faz tempo que você chegou agora ?"
Veja bem... É... Oi ? Se eu cheguei agora, não faz tempo que cheguei. (Tá, essa dá pra entender. Mas tem que mexer na ordem das palavras.)
O(a) vendedor(a) chega pra mim e pergunta: "Como posso ajudar ?"
O pior de tudo não é a pergunta em si, mas o momento em que é feita: quando queremos paz. Quando entro numa loja, normalmente quero dar a famosa "olhadinha", refletir (sim, pode ser pra comprar um espelho também) e comparar preços. E, mesmo que já saiba o que comprar, a pergunta deve partir de mim ! É, retiro o que disse. A pergunta em si já é o pior de tudo. Não sei se o problema é comigo, mas já estou tão saturado dessa pergunta, que chega a me irritar.
No caixa do supermercado: "Mais alguma coisa ?"
Hahahahahaha... (chama-se "riso nervoso". Conhece algum caso de pessoas que riem compulsoriamente no velório de uma pessoa amada ? Pois então... Ah, não que sejam situações equivalentes, mas eu riria de nervoso.) Mais alguma coisa ? Ah, agora eu sou obrigado a pensar. (...)
Atendendo ao telefone, novamente: "Pronto ?"
Eu poderia até perguntar "Pronto pra que !?", mas o problema é que se trata de uma interrogativa. Interrogativa ! É claro que a pessoa que te ligou está pronta pra conversar com você ! Quem deveria responder e essa pergunta é você, que atendeu ! Vai que você estava lavando o banheiro ou saindo do banho, ou em qualquer situação que te impossibilitaria de mexer somente as mãos...
"O prazer é todo meu !"
Ah, para de ser egoísta !! Eu fico como então ? Em depressão !? Vai com calma... Olha o ego aí...
"A coisa ficou feia... ele saiu do sério."
Ôh... Como é que é ? Que maldade... ele começou a rir !? (Deveria ser justamente o contrário do que dizem ser.)
Amigos. Apaga-se a luz. Todos tornam-se silhuetas, iluminados agora somente por uma vela, centro da atenção de todos. Então começa o coro nostálgico e sinestésico: "Parabéns pra você / nessa data querida / muitas felicidades / muitos anos de vida !"
De repente, uma única voz corta o rápido silêncio: "E PRA ELE(A): NADAAAAAAA !!!"
OOOOOOOOW !!!!!!!!!!!! QUE PORRA É ESSA !?!? QUEM É ESSA PESSOA !?!? ALGUÉM ACENDE A LUZ RÁPIDO ANTES QUE ELA FUJA OU VOLTE A SE DISFARÇAR !!! EXPULSA DA FESTA !!! QUEM CONVIDOU !? Como se não bastasse não desejar nada pro aniversariante, ainda quer que o coitado perca tudo !
Estou me referindo a algumas frases do nosso dia-a-dia. Frases tão enraizadas que se tornam normais. Mesmo que de normal não tenham nada:
Você chega ao médico, pra uma consulta, e recebe a pergunta: "Está tudo bem ?"
Quando aquele ser humano chegou à conclusão de que essa pergunta faria algum sentido numa situação daquelas !? "Não, doutor ! Se estivesse tudo bem, eu não estaria aqui !" ou "Melhor agora, que vou fazer exame retal ! Que maravilha !" ¬¬ (Tá. Exagerei.
E quando você atende o telefone e perguntam "Quem gostaria ?" ?
Olha, não sei se todo mundo gosta de ligar pro banco, por exemplo. Ou pra Receita Federal, ou pra algum serviço de atendimento ao consumidor. Eu não gosto. Se gostasse, certamente ligaria com mais frequência, e ficaria, quem sabe, horas ao telefone. Mas por vontade própria, e não ouvindo uma musiquinha de elevador. (Não que música de elevador seja ruim, porque sei que toca jazz em certos elevadores, mas... ah... deu pra entender.)
Você chega ao balcão da padaria e pergunta: "Me vê um sonho ?"
Sabe, se eu fosse a pessoa atrás do balcão, ficaria olhando pra pessoa... olhando, olhando... até que ela me perguntasse "O que foi ?" e eu respoderia, ainda mais se fosse uma mulher "A senhora é muito bonita, mas não posso fazer de você um sonho." E se ela fosse sempre lá, aí... ¬¬
Toda vez que eu chego em casa
Veja bem... É... Oi ? Se eu cheguei agora, não faz tempo que cheguei. (Tá, essa dá pra entender. Mas tem que mexer na ordem das palavras.)
O(a) vendedor(a) chega pra mim e pergunta: "Como posso ajudar ?"
O pior de tudo não é a pergunta em si, mas o momento em que é feita: quando queremos paz. Quando entro numa loja, normalmente quero dar a famosa "olhadinha", refletir (sim, pode ser pra comprar um espelho também) e comparar preços. E, mesmo que já saiba o que comprar, a pergunta deve partir de mim ! É, retiro o que disse. A pergunta em si já é o pior de tudo. Não sei se o problema é comigo, mas já estou tão saturado dessa pergunta, que chega a me irritar.
No caixa do supermercado: "Mais alguma coisa ?"
Hahahahahaha... (chama-se "riso nervoso". Conhece algum caso de pessoas que riem compulsoriamente no velório de uma pessoa amada ? Pois então... Ah, não que sejam situações equivalentes, mas eu riria de nervoso.) Mais alguma coisa ? Ah, agora eu sou obrigado a pensar. (...)
Atendendo ao telefone, novamente: "Pronto ?"
Eu poderia até perguntar "Pronto pra que !?", mas o problema é que se trata de uma interrogativa. Interrogativa ! É claro que a pessoa que te ligou está pronta pra conversar com você ! Quem deveria responder e essa pergunta é você, que atendeu ! Vai que você estava lavando o banheiro ou saindo do banho, ou em qualquer situação que te impossibilitaria de mexer somente as mãos...
"O prazer é todo meu !"
Ah, para de ser egoísta !! Eu fico como então ? Em depressão !? Vai com calma... Olha o ego aí...
"A coisa ficou feia... ele saiu do sério."
Ôh... Como é que é ? Que maldade... ele começou a rir !? (Deveria ser justamente o contrário do que dizem ser.)
Amigos. Apaga-se a luz. Todos tornam-se silhuetas, iluminados agora somente por uma vela, centro da atenção de todos. Então começa o coro nostálgico e sinestésico: "Parabéns pra você / nessa data querida / muitas felicidades / muitos anos de vida !"
De repente, uma única voz corta o rápido silêncio: "E PRA ELE(A): NADAAAAAAA !!!"
OOOOOOOOW !!!!!!!!!!!! QUE PORRA É ESSA !?!? QUEM É ESSA PESSOA !?!? ALGUÉM ACENDE A LUZ RÁPIDO ANTES QUE ELA FUJA OU VOLTE A SE DISFARÇAR !!! EXPULSA DA FESTA !!! QUEM CONVIDOU !? Como se não bastasse não desejar nada pro aniversariante, ainda quer que o coitado perca tudo !
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Nossa...
Ótimo. Posso aproveitar duas das aulas de hoje, já que esqueci de fazer a redação em casa e o prazo termina hoje. Não vou perder muita coisa, e não, não vou sair da sala. Vou tentar redigir lá mesmo. Tudo bem, já pensei o suficiente no tema... e tive uma ideia. Mas acho que isso vai me custar uma fuga do tema. Ou... não ? Complicado... Uma sinuca bem específica. Bom, agora é a hora dos testes, certo ? Vou ver no que dá. (...) Não saiu muito bem como eu queria, mas nunca sai, então vou deixar assim mesmo.
Deixar o texto no limiar da fuga de texto ? Tá, tá. É isso mesmo.
Ela está lendo... Parece bem compenetrada, fez cara de quem está acompanhando normalmente, agora... opa... fechou mais a cara, talvez por maior concentração, talvez por alguma complicação do texto, talvez por não estar entendendo nada... Ela está com a mão cobrindo a boca, e isso dificulta as coisas pra mim. Virou a folha, e não mudou a cara. Espero que seja só compenetração. Acabou !!!
- Nossa... - ela disse, se inclinando um pouco pra trás, baixando pouco a cabeça, arregalando um pouco os olhos, e sorrindo um sorriso indecifrável.
-"Nossa, ficou muito bom !!, "Nossa, você viajou demais...", "Nossa, não entendi nada..." ou "Nossa, tá pior que o King Size !!!" !? Que "nossa" foi esse !? Que cara foi essa !? Você conseguiu não querer dizer nada com essa expressão facial aparentemente significativa !!! A minha dúvida é se eu fugi do tema.
- Então... é realmente complicado de definir. Eu não arriscaria fazer isso na prova. Veja bem, o vestibular é o arroz com feijão.
-Eu fiz o que então ? Uma nojo foods ? McDonalds, churrasco grego ? Entendo.
- Foi meio arrsicado mesmo.
-Você está querendo dizer que viajei demais ? Tipo O Fantástico Mundo de Bob ? Sim, fiz de propósito.
(...)
A conversa perdurou e chegou ao fim sem eu saber se era fuga de tema, e que tipo de "nossa" era aquele.
Vida de vestibulando é algo realmente emocionante. ¬¬
Deixar o texto no limiar da fuga de texto ? Tá, tá. É isso mesmo.
Ela está lendo... Parece bem compenetrada, fez cara de quem está acompanhando normalmente, agora... opa... fechou mais a cara, talvez por maior concentração, talvez por alguma complicação do texto, talvez por não estar entendendo nada... Ela está com a mão cobrindo a boca, e isso dificulta as coisas pra mim. Virou a folha, e não mudou a cara. Espero que seja só compenetração. Acabou !!!
- Nossa... - ela disse, se inclinando um pouco pra trás, baixando pouco a cabeça, arregalando um pouco os olhos, e sorrindo um sorriso indecifrável.
-
- Então... é realmente complicado de definir. Eu não arriscaria fazer isso na prova. Veja bem, o vestibular é o arroz com feijão.
-
- Foi meio arrsicado mesmo.
-
(...)
A conversa perdurou e chegou ao fim sem eu saber se era fuga de tema, e que tipo de "nossa" era aquele.
Vida de vestibulando é algo realmente emocionante. ¬¬
domingo, 20 de junho de 2010
No dia seguinte alguém morreu
Se ele era muito isso, muito aquilo, eu não sei. Na verdade, pouco sei. Muito pouco. E "muito pouco" ainda considero hipocrisia. Só sei que ouvia dos outros a respeito dele. E acho que não seria bom pra mim fazer da morte um motivo de idolatria. Seria nada mais que idealização. E a pior de todas, que só aumenta sem motivo.
Então, justamente por não conhecê-lo fiz questão de tentar tirar proveito de coisas tão pequenas. Sem idealização ou imitação. Apenas o imaginando como alguém de tantas frases, tentando entendê-las enquanto as diz, como eu e qualquer um fazemos tantas vezes. Frases por frases não levam a nada. Faço delas algo sobre o que pensar. Posso até concordar ou negar, desde que critique. Que a idolatria nasça longe da morte.
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."
"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."
"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos ?"
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não."
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar."
"Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo."
(Trecho de Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago)
Então, justamente por não conhecê-lo fiz questão de tentar tirar proveito de coisas tão pequenas. Sem idealização ou imitação. Apenas o imaginando como alguém de tantas frases, tentando entendê-las enquanto as diz, como eu e qualquer um fazemos tantas vezes. Frases por frases não levam a nada. Faço delas algo sobre o que pensar. Posso até concordar ou negar, desde que critique. Que a idolatria nasça longe da morte.
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."
"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."
"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos ?"
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não."
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar."
"Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo."
(Trecho de Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago)
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Sinto muito
Foi num almoço entre amigos. Só mais um almoço. Não, pra mim não foi só mais um almoço. E espero que para os outros ali presentes também não tenha sido. Ouvi coisas que carimbaram minha memória e encharcaram minha mente; e essa tinta ainda não secou, porque o tempo ainda não foi suficiente. Ainda escorre.
Uma amiga começou a falar. Sobre morte. Eu sabia seu histórico, mesmo que superficialmente: havia perdido a mãe quando pequena. Falava não só a respeito de morte, mas da morte da própria mãe. De um jeito completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto bem diante de mim; com uma naturalidade de quem sabe lidar. E enquanto a ouvia, fui tentando perceber em que lugar ela estava, se eu ou alguém naquela mesa já estivemos lá também. Talvez tenha sido daí que veio o valor que dei ao que estava ouvindo: eu nunca nem imaginei pisar lá. Ela era pouco mais velha que eu e, ali, só me restava ouvir e, se não fosse pra aprender nada, apenas ouvir. Falar - como quase sempre - não adiantaria de nada.
Não vou usar exatamente as palavras dela mas, resumidamente, dizia que se você não sente nada pela morte de alguém, faça o favor de não dizer "sinto muito". Não diga nada, que é melhor.
Não sou ninguém pra colocar em pauta essa frase. Aliás, nunca serei. Não me veio na memória se já havia dito e, se havia, quantos "sinto muito" foram. Mas me senti pequeno naquele momento. E mumificado. Mumificado, mais uma vez, pela famosa educação. Me sentindo mais um dentre muitos que se acham poucos. Cheguei à conclusão de que não me lembrava se disse alguma vez. Talvez porque só tenham dito pra mim. E mesmo assim, pelo mesmo motivo, não me lembro. Não se fala isso.
Há poucos dias, passei por uma experiência que deixou mais uma marca em minha memória. Marca do mesmo carimbo. E percebi que há muito o que secar da tinta em minha mente:
O que é isso !? São gritos !!! No vizinho... Deve ser barraco. Bem agora que preciso de concentração... Lá vão meus pais. Que necessidade é essa ? Entendo. Não há nada tão emocionante na televisão. Entendo... Discordo. Deixem os vizinhos em paz.
(...)
Agora tem algo realmente muito errado. Ouço o dono dos gritos, mas não como antes. Seu grito não tem apenas volume e imponência, mas agora dor, ódio, impotência, cegueira. Ele xingava com as mesmas palavras de antes, mas cada uma ganhou significado diferente diante de tudo o que palavras não podem transmitir. Fui ver, além de ouvir. E tentar ver além de ouvir. O motivo ? Não sei dizer. Talvez o mesmo de meus pais, talvez o mesmo de qualquer um.
Nossa... É nessa hora que aqui e agora as palavras me são inúteis. Não sei usá-las e nunca vi alguém que soubesse a ponto de fazê-las fieis ao que vi naquele momento. Aquele homem estava fora de si. Numa tentativa frustrante de desvincular-se de si, correr de si, afastar-se de si e, ao ver-se, ao sentir-se, só lhe restava cuspir tudo sobre os outros, sem a menor perspectiva, sem a menor noção de consequência, sem. Desmumificou-se. Tudo passou de estopim para explosão, não havia ponto de vista porque não havia vista. Aquele homem era puro animal. Tão pequeno... Tentava, em vão, jogar os outros de alimento ao que o consumia. Todos o viam, mas ninguém estava no mesmo lugar que ele. Eu, mais uma vez, percebi que nunca pisei lá. E, a todo momento, pensava na probabilidade de, algum dia, eu estar ali em frente a ele, tentando fazer o que muitos fingem que ensinam e muitos outros fingem que aprendem.
Hoje alguém apareceu no portão daqui de casa. Era uma mulher. Esposa do homem. Com uma jarra de metal na mão. Disse que veio devolver o que minha mãe usou para levar chá. A mãe dele havia realmente falecido. Ele reclamava porque o resgate demorou muito. Pediu para que agradecesse a meus pais. Pensei muito pra falar: Vamos, você não tem educação ? Quem é você pra falar ? O que ela vai pensar de você ? Você nunca esteve naquele lugar pra sentir.
- Sinto muito, sinto muito.
- Obrigada.
Um mais vazio que o outro. Um mais educado que o outro.
Uma amiga começou a falar. Sobre morte. Eu sabia seu histórico, mesmo que superficialmente: havia perdido a mãe quando pequena. Falava não só a respeito de morte, mas da morte da própria mãe. De um jeito completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto bem diante de mim; com uma naturalidade de quem sabe lidar. E enquanto a ouvia, fui tentando perceber em que lugar ela estava, se eu ou alguém naquela mesa já estivemos lá também. Talvez tenha sido daí que veio o valor que dei ao que estava ouvindo: eu nunca nem imaginei pisar lá. Ela era pouco mais velha que eu e, ali, só me restava ouvir e, se não fosse pra aprender nada, apenas ouvir. Falar - como quase sempre - não adiantaria de nada.
Não vou usar exatamente as palavras dela mas, resumidamente, dizia que se você não sente nada pela morte de alguém, faça o favor de não dizer "sinto muito". Não diga nada, que é melhor.
Não sou ninguém pra colocar em pauta essa frase. Aliás, nunca serei. Não me veio na memória se já havia dito e, se havia, quantos "sinto muito" foram. Mas me senti pequeno naquele momento. E mumificado. Mumificado, mais uma vez, pela famosa educação. Me sentindo mais um dentre muitos que se acham poucos. Cheguei à conclusão de que não me lembrava se disse alguma vez. Talvez porque só tenham dito pra mim. E mesmo assim, pelo mesmo motivo, não me lembro. Não se fala isso.
Há poucos dias, passei por uma experiência que deixou mais uma marca em minha memória. Marca do mesmo carimbo. E percebi que há muito o que secar da tinta em minha mente:
O que é isso !? São gritos !!! No vizinho... Deve ser barraco. Bem agora que preciso de concentração... Lá vão meus pais. Que necessidade é essa ? Entendo. Não há nada tão emocionante na televisão. Entendo... Discordo. Deixem os vizinhos em paz.
(...)
Agora tem algo realmente muito errado. Ouço o dono dos gritos, mas não como antes. Seu grito não tem apenas volume e imponência, mas agora dor, ódio, impotência, cegueira. Ele xingava com as mesmas palavras de antes, mas cada uma ganhou significado diferente diante de tudo o que palavras não podem transmitir. Fui ver, além de ouvir. E tentar ver além de ouvir. O motivo ? Não sei dizer. Talvez o mesmo de meus pais, talvez o mesmo de qualquer um.
Nossa... É nessa hora que aqui e agora as palavras me são inúteis. Não sei usá-las e nunca vi alguém que soubesse a ponto de fazê-las fieis ao que vi naquele momento. Aquele homem estava fora de si. Numa tentativa frustrante de desvincular-se de si, correr de si, afastar-se de si e, ao ver-se, ao sentir-se, só lhe restava cuspir tudo sobre os outros, sem a menor perspectiva, sem a menor noção de consequência, sem. Desmumificou-se. Tudo passou de estopim para explosão, não havia ponto de vista porque não havia vista. Aquele homem era puro animal. Tão pequeno... Tentava, em vão, jogar os outros de alimento ao que o consumia. Todos o viam, mas ninguém estava no mesmo lugar que ele. Eu, mais uma vez, percebi que nunca pisei lá. E, a todo momento, pensava na probabilidade de, algum dia, eu estar ali em frente a ele, tentando fazer o que muitos fingem que ensinam e muitos outros fingem que aprendem.
Hoje alguém apareceu no portão daqui de casa. Era uma mulher. Esposa do homem. Com uma jarra de metal na mão. Disse que veio devolver o que minha mãe usou para levar chá. A mãe dele havia realmente falecido. Ele reclamava porque o resgate demorou muito. Pediu para que agradecesse a meus pais. Pensei muito pra falar: Vamos, você não tem educação ? Quem é você pra falar ? O que ela vai pensar de você ? Você nunca esteve naquele lugar pra sentir.
- Sinto muito, sinto muito.
- Obrigada.
Um mais vazio que o outro. Um mais educado que o outro.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Lição de Casa
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Rachel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Rachel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida !
(Sonetos - Luís Vaz de Camões)
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer quem ama a quem ama. Quantas coisas há no mundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama, haviam de ser muito aborrecidas ! Graças logo ao engano e não ao amor. Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão, e ao cabo deles, em vez que lhe darem a Rachel, deram-lhe a Lia. Ah enganado pastor e mais enganado amante ! Se perguntarmos à imaginação de Jacó por quem servia, responderá que por Rachel. Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há de ser, dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não servis por quem cuidais. Cuidais que vossos trabalhos e os vossos desvelos são por Rachel, a amada, e trabalhais e desvelais-vos por Lia, a aborrecida. Se Jacó soubera que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias. Serviu logo ao engano e não ao amor, porque serviu para quem não amava. Oh quantas vezes se representa esta história no teatro do coração humano, e não com diversas figuras, se não na mesma ! A mesma que na imaginação é Rachel, na realidade é Lia; e não é Labão o que engana a Jacó, senão Jacó o que se engana a si mesmo. Não assim o divino amante, Cristo. Não serviu por Lia debaixo da imaginação de Rachel, mas amava a Lia conhecida como Lia. Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor, nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos, e por cada um, não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo, sabendo que era inimigo; pelo ingrato, sabendo que era ingrato; e pelo traidor, sabendo que era traidor.
Deste discurso se segue uma conclusão tão certa como ignorada: é que os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há; porque amam as coisas, não como são, senão como as imaginam; e o que se imagina, e não é, não há no Mundo. Não assim o amor de Cristo, sábio sem engano.
(Sermão do mandato - Padre Antônio Vieira)
Labão, pai de Rachel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Rachel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida !
(Sonetos - Luís Vaz de Camões)
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer quem ama a quem ama. Quantas coisas há no mundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama, haviam de ser muito aborrecidas ! Graças logo ao engano e não ao amor. Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão, e ao cabo deles, em vez que lhe darem a Rachel, deram-lhe a Lia. Ah enganado pastor e mais enganado amante ! Se perguntarmos à imaginação de Jacó por quem servia, responderá que por Rachel. Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há de ser, dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não servis por quem cuidais. Cuidais que vossos trabalhos e os vossos desvelos são por Rachel, a amada, e trabalhais e desvelais-vos por Lia, a aborrecida. Se Jacó soubera que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias. Serviu logo ao engano e não ao amor, porque serviu para quem não amava. Oh quantas vezes se representa esta história no teatro do coração humano, e não com diversas figuras, se não na mesma ! A mesma que na imaginação é Rachel, na realidade é Lia; e não é Labão o que engana a Jacó, senão Jacó o que se engana a si mesmo. Não assim o divino amante, Cristo. Não serviu por Lia debaixo da imaginação de Rachel, mas amava a Lia conhecida como Lia. Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor, nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos, e por cada um, não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo, sabendo que era inimigo; pelo ingrato, sabendo que era ingrato; e pelo traidor, sabendo que era traidor.
Deste discurso se segue uma conclusão tão certa como ignorada: é que os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há; porque amam as coisas, não como são, senão como as imaginam; e o que se imagina, e não é, não há no Mundo. Não assim o amor de Cristo, sábio sem engano.
(Sermão do mandato - Padre Antônio Vieira)
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