Foi num almoço entre amigos. Só mais um almoço. Não, pra mim não foi só mais um almoço. E espero que para os outros ali presentes também não tenha sido. Ouvi coisas que carimbaram minha memória e encharcaram minha mente; e essa tinta ainda não secou, porque o tempo ainda não foi suficiente. Ainda escorre.
Uma amiga começou a falar. Sobre morte. Eu sabia seu histórico, mesmo que superficialmente: havia perdido a mãe quando pequena. Falava não só a respeito de morte, mas da morte da própria mãe. De um jeito completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto bem diante de mim; com uma naturalidade de quem sabe lidar. E enquanto a ouvia, fui tentando perceber em que lugar ela estava, se eu ou alguém naquela mesa já estivemos lá também. Talvez tenha sido daí que veio o valor que dei ao que estava ouvindo: eu nunca nem imaginei pisar lá. Ela era pouco mais velha que eu e, ali, só me restava ouvir e, se não fosse pra aprender nada, apenas ouvir. Falar - como quase sempre - não adiantaria de nada.
Não vou usar exatamente as palavras dela mas, resumidamente, dizia que se você não sente nada pela morte de alguém, faça o favor de não dizer "sinto muito". Não diga nada, que é melhor.
Não sou ninguém pra colocar em pauta essa frase. Aliás, nunca serei. Não me veio na memória se já havia dito e, se havia, quantos "sinto muito" foram. Mas me senti pequeno naquele momento. E mumificado. Mumificado, mais uma vez, pela famosa educação. Me sentindo mais um dentre muitos que se acham poucos. Cheguei à conclusão de que não me lembrava se disse alguma vez. Talvez porque só tenham dito pra mim. E mesmo assim, pelo mesmo motivo, não me lembro. Não se fala isso.
Há poucos dias, passei por uma experiência que deixou mais uma marca em minha memória. Marca do mesmo carimbo. E percebi que há muito o que secar da tinta em minha mente:
O que é isso !? São gritos !!! No vizinho... Deve ser barraco. Bem agora que preciso de concentração... Lá vão meus pais. Que necessidade é essa ? Entendo. Não há nada tão emocionante na televisão. Entendo... Discordo. Deixem os vizinhos em paz.
(...)
Agora tem algo realmente muito errado. Ouço o dono dos gritos, mas não como antes. Seu grito não tem apenas volume e imponência, mas agora dor, ódio, impotência, cegueira. Ele xingava com as mesmas palavras de antes, mas cada uma ganhou significado diferente diante de tudo o que palavras não podem transmitir. Fui ver, além de ouvir. E tentar ver além de ouvir. O motivo ? Não sei dizer. Talvez o mesmo de meus pais, talvez o mesmo de qualquer um.
Nossa... É nessa hora que aqui e agora as palavras me são inúteis. Não sei usá-las e nunca vi alguém que soubesse a ponto de fazê-las fieis ao que vi naquele momento. Aquele homem estava fora de si. Numa tentativa frustrante de desvincular-se de si, correr de si, afastar-se de si e, ao ver-se, ao sentir-se, só lhe restava cuspir tudo sobre os outros, sem a menor perspectiva, sem a menor noção de consequência, sem. Desmumificou-se. Tudo passou de estopim para explosão, não havia ponto de vista porque não havia vista. Aquele homem era puro animal. Tão pequeno... Tentava, em vão, jogar os outros de alimento ao que o consumia. Todos o viam, mas ninguém estava no mesmo lugar que ele. Eu, mais uma vez, percebi que nunca pisei lá. E, a todo momento, pensava na probabilidade de, algum dia, eu estar ali em frente a ele, tentando fazer o que muitos fingem que ensinam e muitos outros fingem que aprendem.
Hoje alguém apareceu no portão daqui de casa. Era uma mulher. Esposa do homem. Com uma jarra de metal na mão. Disse que veio devolver o que minha mãe usou para levar chá. A mãe dele havia realmente falecido. Ele reclamava porque o resgate demorou muito. Pediu para que agradecesse a meus pais. Pensei muito pra falar: Vamos, você não tem educação ? Quem é você pra falar ? O que ela vai pensar de você ? Você nunca esteve naquele lugar pra sentir.
- Sinto muito, sinto muito.
- Obrigada.
Um mais vazio que o outro. Um mais educado que o outro.
Interessante como o ser humano responde de maneira diferente a um acontecimento, a morte. O que difere a calma da fúria? O contentamento... Não! Mas a esperança e a certeza que na vida somos passageiros da última hora. Não somos donos do mundo, mas hóspedes! Temos a obrigação de viver cada dia como um presente...! Viva, ame, espere, caminhe e não pare! Mesmo que não faça sentido, hoje, espere... Amanhã é outro dia! =)
ResponderExcluirQual é o oposto de morrer? Tic-tac, tic-tac, tic-tac... priiiiim. Se vc respondeu que é VIVER está ERRADO! O oposto de morrer é nascer! O nascer e o morrer são os extremos de todo o ser humano(ou ser vivo), é o que nos torna essencialmente iguais independente do sexo, cor, religião, ou qualquer que seja o parâmetro escolhido. Assim o que te faz ser quem você é, é o que você realizou entre os extremos,somos iguais porém únicos, e nos torna únicos a forma como vivemos e como fazemos melhor a nossa vida e a do próximo, a forma como lutamos, como vencemos e como lidamos com a derrota!A cada dia se tem a incrível oportunidade de tornar o mundo um pouco melhor, a escolha é sua em fazê-lo ou não,o problema é que não fazê-lo pode ser um detalhe pra você, mas significar muito para os outros. Viva com a consciência de que você faz a diferença!
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