domingo, 20 de junho de 2010

No dia seguinte alguém morreu

Se ele era muito isso, muito aquilo, eu não sei. Na verdade, pouco sei. Muito pouco. E "muito pouco" ainda considero hipocrisia. Só sei que ouvia dos outros a respeito dele. E acho que não seria bom pra mim fazer da morte um motivo de idolatria. Seria nada mais que idealização. E a pior de todas, que só aumenta sem motivo.
Então, justamente por não conhecê-lo fiz questão de tentar tirar proveito de coisas tão pequenas. Sem idealização ou imitação. Apenas o imaginando como alguém de tantas frases, tentando entendê-las enquanto as diz, como eu e qualquer um fazemos tantas vezes. Frases por frases não levam a nada. Faço delas algo sobre o que pensar. Posso até concordar ou negar, desde que critique. Que a idolatria nasça longe da morte.

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."

"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."

"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos ?"
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."

"Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não."

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar."

"Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo."
(Trecho de Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago)

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