terça-feira, 17 de maio de 2011

Catarro

Eu estava na plataforma de uma estação de metrô. Nesse frio até que é um bom lugar pra se ficar, tirando o fato de que uma plataforma de metrô não foi feita pra se ficar, mas pra deixá-la lá lálálá... lálá. Se bem que pensando por aí, calçadas não foram feitas como um espaço pra se encher de mesas e cadeiras, os elementos imprescindíveis juntos da falação agitada e alta das happy hours; o Google Earth não foi feito pra você achar a sua casa (a felicidade mais efêmera que existe), por mais que você - teoricamente - já saiba onde fica há tempos; enfim... Vem da criatividade achar outras funções pras coisas e eu ficaria lá na estação numa boa, mas tinha compromisso.
O trem chegou. Até que não estava muito cheio, mas tive que ficar de pé. Sentada na cadeira bem diante de mim, uma senhora.
Logo veio aquele planejamento rápido de quem sabe que o trem vai enchendo conforme passam as estações: onde ficar pra que eu tenha um jeito relativamente fácil de ter pra onde ir depois. Decidi ficar ali mesmo.
Então lembrei que esqueci de pôr um punhado de papel higiênico no bolso de trás da calça.
Aquele catarro vinha me incomodando há uns dias. Ali estava bem naquele estágio em que chego a sentir inveja da respiração regular dos outros e saudades da minha. Mas não era algo pleno, porque ainda me sobrava uma narina - numa luta quase injusta de força gravitacional versus status socio-higiênico - mas ainda uma.
Resfriado. Hepatite, caxumba, sarampo, catapora, hidrofobia, dengue, febre amarela, poliomielite, rubéola, meningite, encefalite, herpes, pneumonia ? Não. Resfriado ? Catarro ? Sim. E agora estou com o nariz e peito cheios desse quase-paradoxo imunológico. Só porque tem muito e não incomoda tanto é que tá em todo lugar, é isso ? Veja bem qual o tamanho do "incômodo" nessa frase, porque as pessoas estão entrando no trem, como eu previa, e tenho que tirar a mochila das costas pra dar mais espaço, além de ter que me segurar nessa barra. Agora o incômodo do catarro aumentou um pouquinho. Ah... @#$%& tem a véia sentada aqui na frente... E ELA TÁ OLHANDO !!!
Agora o incômodo atingiu um tamanho colossal, um patamar etéreo. Porque não se trata mais de algo meu comigo mesmo, mas envolve mais alguém, e isso significa que não tenho controle absolutamente nenhum da situação. Mas vou treinar um anto-enganozinho até chegar a minha estação. E a véia não para de olhar. Claro que não... Tem uma visão privilegiadíssima de uma parte de mim que eu não vejo e nem quero ver, e está fazendo questão que vê. Talvez seja por isso que estou tão puto com a senhora, não é mesmo ? Ela me vê, e eu não posso vê-la porque teria que olhar pra baixo, e seria o mesmo que dar bônus de força à gravidade contra a minha única narina atual, que perderia com brio (com todos os sentidos que essa palavra pode assumir). Estou imobilizado pelas pessoas à minha volta, pela minha mochila e pelo desejo de não cair, que ocupa minha outra mão.
Como será que está meu catarro ? Claro que a janela de Murphy diante de mim, por definição, está aberta e me impede de ver.
No momento, percebo que minha única narina está cedendo, porque minhas vias nasais são uma grande obstrução. Minha inspiração é puro catarro. Por extensão, todo esse ar a minha volta é puro catarro. Então me vejo nesse metrô... Túnel viscoso, trem-perdigoto nessa viagem-espirro. Velha maldita.
Não sei se pelo calor bacanal de tanta gente junta, meu alien vai se soltando, todo maroto. E é nessa hora que o problema ganha abrangência: vai chegar no lábio ou não ? Pelo menos pra mim, essa situação é a mais injusta, porque só é percebida quando já aconteceu. O único que não percebe o poder transgressor do catarro é o dono dele. Se estou tão preocupado assim, meu nariz ainda é o local da narrativa.
Minha senhora, tá olhando o que ? O catarro não escorreu ainda. Ainda ! Eu disse ainda !! Essa palavra não existe aqui, entendeu ?! Assim como o catarro escorrendo. Não existe. E se a senhora dá tanta atenção a algo bem diante de você, que não existe, a senhora é LOUCA !!! ESQUIZOFRÊNICA !!! Agora ponha o pé no chão, que vou te perguntar: nunca viu não ? Catarro ? Nunca peidou na vida, minha senhora ? Não me venha com essa cara de "ai-que-grosseria" porque pela sua idade, já peidou mais que o triplo que eu na vida !
Mas eu entendo você. Tanto que se estivéssemos de lugares trocados, ah... Eu não pararia de olhar nunca, e torceria a favor da sucumbência dessa sua blusa de pele, calça de couro, botas, brincos, maquiagem, perfume e cabelos, esse conjunto que custa a sua auto-estima, o olho da cara, horas do seu dia e a sua ilusão de segurança diante dos outros. Tudo sendo ofuscado pelo brilho denso e visceral de uma cachoeira selvagem e primitiva avançando impassível pro chão-mar onde jás tantas outras. Ah, sim !!! PARA DE OLHAR, VELHA FILHA-DA-PUTA !!! Se não eu escarro todas as gotas de catarro esquizofrênico em cima de você ! Viu como tenho certo poder na situação ? Fica pianinha aí...
E pela milésima vez curvo minha cabeça pra cima, dando um lugar mais privilegiado à velha nessa plateia que vê meu show. Acho que o primeiro a dar tanta atenção ao céu estava com um resfriado dos meus.
Enfim chega a minha estação. Me liberto dessa prisão, adeussenhora, e já a caminho do lixo estou na iminência de desfazer-me brusco em ruídos e...

 Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

 Concordo com Drummond, mas devo dizer que certas coisas são pontuais, insubstituíveis:

 Catarro, catarro, catarro - o visco radiante
que me dá, pelo espirro, a explicação do mundo.


(Conto baseado no livro Tanto Faz - texto 11; de Reinaldo Moraes)

2 comentários:

  1. ...
    e fazer prova resfriado!? é tenso, vc tem q ficar com a cabeça pra baixo para ver a prova e deixa a gravidade curtir sozinha o prazer de fazer seu nariz escorrer. É meu maior trauma.

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  2. Cara... nem na aula de fisio respiratória eu ouvi ou li tantas vezes a palavra catarro. rss
    Mocinho... vc gosta de viagens looongas... rs.
    Seguindo-te aqui tbm viu!

    Smaaack!

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