Chegando na sala, olhei direto pra fileira onde normalmente sento, procurando pelo lugar usual. Estava livre. Passei pela fileira - um pouco apertada, por sinal - e me "aconcheguei", até onde o assento (e minha bunda) permitissem usar essa palavra. É impressionante como consigo ser desastrado. Espremi meu dedo entre o meu próprio joelho e a parte de baixo da mesa vizinha. Doeu o suficiente pra que eu soltasse um "Fia-da-puta !" numa altura razoável, que servisse pro monólogo. Ou pelo menos era o que eu pensava.
"Desculpa", uma voz logo atrás de mim. Olhei. Era uma menina que estava passando logo atrás de mim, pra que pudesse evitar as pernas que fechavam o caminho da minha fileira e chegar facilmente ao seu lugar: ao meu lado. Não, não ! Eu estava falando sozinho ! Me machuquei sozinho, e como doeu muito, xinguei ! Eu não faço a menor ideia de como isso funciona, se é que de fato funciona, ou se só faço de conta que funciona, mas é o que faço. Pode ter até o mesmo sentido dos gritos dos guerreiros, coisa antiga, hein... tem seu valor. Pode ser distração, é. Gritar pra esquecer um pouco da dor, sabe ? "Eu machuquei meu dedo..." Foi o que consegui dizer, ainda com aquela cara de dor, de quem não acha graça em nenhuma piada, ignora ou sartiriza perguntas como "doeu ?", e prefere morrer antes de responder a um prudente "como aconteceu ?". Ela nem olhou pra mim e se sentou. Ah, não ! Ela entendeu tudo errado ! Eu xinguei, ela pediu desculpas e nem olhou pra mim, enquanto eu me explicava ! Ela tá puta. Mas eu nem estava olhando pra ela quando xinguei, estava olhando pra frente ! Mas ela provavelmente estava de costas pra mim, porque, quando olhei, ela vinha de costas. Já sei ! Ela pediu desculpas porque achou que a mochila dela esbarrou na minha cabeça ! É isso ! Então piorou. Ela esbarrou a mochila na minha cabeça, sem querer, eu xingo ela de fia-da-puta, a gente nem se conhece, e tudo o que ela tem a me dizer é um acuado "desculpa" !? Ah, você tem problema, queridinha ! Vamos pesar as coisas aqui: um esbarrão. Normal, ainda mais num ambiente espremido como esse. Um pedido de desculpas é uma admirável demostração de educação. Agora, intercalando um xingamento aí, as coisas mudam de peso. Não se recebe um xingamento desses, num contexto desses, de forma tão passiva ! É porque eu sou um desconhecido ? Não ! Não faz o menor sentido. Veja, vamos para um extremo: se eu fosse um amigo seu, você riria depois disso. Xingamentos entre amigos recebe uma conotação tão única... Mas esse não é o caso. O caso é que eu sou um desconhecido te xingando. Por mais que seja uma coisa relativa, a grande tendência seria você se mostrar ofendida e olhar muito feio pra mim, me questionar sobre o porquê do xingamento, não se conformar, no mínimo. Ah, já sei. É porque a sala está muito cheia ? Começar uma briga em meio a mais ou menos cento e cinquenta pessoas te intimida ? Ah, entendi. Você está ofendida, muito puta comigo, mas quer deixar pra resolver a questão num momento mais apropriado. E não olhou pra mim como sinal disso. Não ! Você não olhou pra mim porque está indiferente ! Claro ! Nada pior que a indiferença, não é mesmo !? Mas... E se ela não olhou pra mim enquanto me explicava, porque simplesmente o pedido de deculpas não era pra mim ? Simples. Ela veio, um de costas pro outro, eu xinguei, ela não ouviu, esbarrou de uma das milhares de formas em uma das milhares de pessoas pelo caminho, pediu desculpas a essa pessoa, e nem prestou atenção em mim quando virei rapidamente (porque realmente foi muito rápido) pra me explicar. Mas... Se a minha visão periférica não estiver tão ruim, vi que ela virou na direção da minha fileira, bem atrás de mim. Só poderia ser comigo. Eu não xinguei tão alto assim, ou xinguei ?Ninguém em volta ouviu, ou, se ouviu, não demonstrou. E eu estava olhando pra frente ! Bom, pra quem está de costas, basta ouvir. Vai que o ouvido dela é bom. É, acho que eu ouviria. Já me vi várias vezes em situações em que só eu ouvia certas coisas (não eram vozes). É, se fosse eu, ouviria, e brigaria ! Não é possível isso ! Bom, já que ela não olhou nem nada, prefiro acreditar que não era comigo, apesar de não acreditar nessa minha preferência.
Começaram as aulas. Me foquei. Em certo momento, algo me chamou atenção. É normal que as pessoas tenham folhas e apostilas e cadernos e fichários sobre a mesa. Mas ela estava com o fichário fechado e, sobre ele, um livro. Não um livro que cabia naquele contexto. O meu primeiro interesse veio justamente disso: não tinha nada a ver com as aulas. No segundo seguinte, identifiquei o tipo de livro: MPB. Contexto histórico, fotografias da época, etc. Meu interesse aumentou, e muito. Mas eu precisava prestar atenção nas aulas. Sem problemas, uma espiadinha de vez em quando não faz mal a ninguém.
Opa, ela está lendo. Não, não estou dizendo isso porque olhei, mas porque ouvi. Bom, aparentemente ela está lendo pra amiga ao lado. Ela até que lê baixinho. Cheguei a ouvi-la cantar, mas eu não conhecia aquela música. O microfone do professor está mais alto que a voz dela. Tá fácil manter o foco. (...) O professor parou de falar durante um bom tempo, e ela continuou a ler. Não sei se por ser só a voz dela agora, pareceu mais alta que nunca. Até a menina na minha frente olhou pra ela. E ela, percebendo o momento "mas-só-o-professor-Girafales", foi baixando a voz numa velocidade absurda, até cochihcar, hahahaha. Eu só estou de esguelha no livro. Nossa, preciso voltar ou na Fnac ou na Cultura. Vou na Cultura. Além de ter desconto, gosto muito daquele lugar. Me dá uma paz de espírito. Mas um livro desse deve ser uma facada, mesmo com desconto. Droga. Me deu uma puta vontade de tocar violão. Queria ter super poderes só pra isso agora. (...)
Só falta uma aula. Essa é a hora em que várias pessoas vão embora. Ela é uma. Ótimo, uma pessoa que tem uma péssima imagem de mim está indo embora, sem que eu tenha a menor chance de esclarecimento. Ela então, passando na minha frente, séria, olhando apenas pro caminho que seguiria: "Tô indo moço, sei que você está cheio de mim." AHAAAA !!! EU SABIA !!! EU SABIA !!!!!! MARAVILHA, EU ESTAVA CERTO !!! QUE BOSTA, EU ESTAVA CERTO !!! NÃO, NÃO, NÃO !!! "Desculpa..." Moça, eu NÃO te xinguei, tudo bem ? Eu sei que tá difícil de te convencer, mas é fato. Ela tá indo embora... tá no corredor... tá esperando a amiga... vai, qualquer coisa agora ! Comecei a acenar com a mão, até ela olhar. Olhou ! Nossa, ela tá séria mesmo. "Como se chama o livro que você estava lendo ?" Ela tentou lembrar, perguntou pra amiga, que me respondeu. Era um songbook do Chico Buarque. Número 4. A amiga dela me perguntou se eu curtia. Respondi o óbvio. Ela estava séria, e era comigo. Mas então "Depois aparece lá embaixo pra ver a gente fazer um som. À tarde." Ótimo ! Super confuso, mas ótimo ! Era a oportunidade que eu tinha de por as cartas na mesa. Ela realmente tinha me entendido muito mal. Fez aquele comentário sem nenhum tom identificável de ironia, brincadeira, ou coisa do tipo. Eu pedi desculpa enquanto ela saía ! Sou eu quem está sem graça ! Será que eu não prestei muita atenção nela ? Ah, ela estava séria, sim !
Acabou a aula. Bom, ela disse que seria à tarde. Já que vou almoçar aqui perto mesmo, posso ficar estudando por aqui, até um horário razoável. Desci, saí, e fiquei procurando alguma menina com um violão. O pior é que eu tinha visto o rosto dela só naquele último contato. Não a reconheceria tão fácil. Nada. Não a encontrei. Vou almoçar e depois tento de novo.
Voltei, e fiquei um tempo ali "embaixo". Calma aí: onde era "lá embaixo" ? Será que tenho que descer mais um ou dois lances de escada ? Mas aqui seria mais conveniente fazer um som. Ou será que é na rua ? Já sei ! Sempre tem gente que deixa uns instrumentos na sala da coordenação. "Bom dia. Por favor, esses instrumentos são pra algum evento daqui ?" "Não. É que às vezes deixam aqui mesmo." "Obrigado." Bom, talvez seja dela. Vou ficar mais um tempo aqui. (...)
Ah, não ! Os instrumentos sumiram ! Agora, fudeu ! "Com licença, esses instrumentos era de alunos da manhã ?" "Sim." "Obrigado." É, fudeu. Mas quem disse que é necessariamente um violão ? Som se faz com várias coisas, inclusive coisas que caibam numa mochila. Mas era MPB, era Chico ! Pode ser com cavaco só. Mas ela disse "à tarde" e ainda nem deu o horário dos alunos do período da tarde. Mas que "à tarde é esse ?" 14, 15, 16, 17 horas ? Não vou ficar mais aqui esperando. Nem sei onde nem quando é ! Já levaram algum violão que tinha aqui, ficar em pé aqui tá foda. E o rosto dela está sumindo gradualmente da minha memória, ainda que, se eu vê-la, dá pra reconhecer. O problema é que é amanhã é o último dia de aula do primeiro semestre, então tenho só mais uma chance. Quase certeza que ela não era da minha sala. Sei que ela conversou em algum momento com uma outra menina, que é da minha sala. Se não estivesse de penetra lá, sempre sentaria por ali. Bom, de qualquer jeito, só me resta amanhã pra desfazer o mal-entendido. (...)
Ótimo, ela não veio. E ontem um cara xingou ela de filha-da-puta só por um esbarrão acidental. Além de não aparecer depois do convite. Muito simpático !
Esse é o Neurose. Ele aparecerá aqui quando puder, e quando não puder também; afinal, ele vem e vai inexplicavelmente. Saibam mais sobre ele na coluna ao lado, em "Meus Espelhos". Lá também estão o Fiduma e o Seu Lelé.
vc tem problemas sérios O.o hahahaha
ResponderExcluirCara muito bom o texto, lendo ele para que ele tem movimento, não que as palavras andem mas que elas causem o efeito do leitor sair da inércia de estar apenas lendo.
ResponderExcluirFeh, vc tem que escrever um livro.
PS:Eu compraria um livro seu!!