quinta-feira, 7 de março de 2013

Conta até dez, de trás pra frente.


- Pronto pra anestesia?
- Hahaha, pra dormir tô sempre pronto, doutor.
- Viu como é fácil? Hahaha. Ótimo. Conta até dez, de trás pra frente.
- Tá faltando coisa aí, doutor.
- Como assim?
- Eu não posso fazer o que o senhor tá me pedindo, a não ser que me diga mais um dado.
- Continuo sem entender.
- Ué, se eu tenho que contar até dez, mas de trás pra frente... Posso começar de infinitos números da minha escolha, a não ser que o senhor diga qual é...
Pra restringir esse infinito de possibilidades, sabe?
- Mas o que...
- Se o senhor dissesse pra contar até 10 e só, ficaria subentendido que eu tenho que começar do zero...
- Então vamos fazer assim...
- ...ou do um. Acho que não faria muito sentido começar contando do zero, né? É um número meio encrencado aí... Deu confusão com a igreja quando surgiu...
- Porque então não fica subentendido também o que eu quis dizer?
- Porque começando do zero - ou melhor, do um - as possibilidades estão dentro do contexto... Digo, a anestesia não vai demorar um infinito pra fazer efeito, certo? Já do jeito que o senhor disse, não fica nada preciso.
- Se você sabe que o contexto influencia, deve imaginar que você dificilmente vai chegar no dez, certo?
- Depende de que número eu começar. Até porque se eu sei o contexto, posso começar do doze, por exemplo...
- Mas...
- ...mas aí eu poderia chegar no dez e não saberia mais o que fazer.
- MAS VOCÊ VAI COMEÇAR DO UM!
- Calma, doutor! Mas isso não é o que o senhor disse...
- COMEÇA DE ONDE QUISER ENTÃO!
- Calma, calma. Já sei! Se eu considerar que o subentendido era começar do um, então eu teria que contar dez números. Então é só eu jogar dez números além do 10, pra que eu possa contar até dez, só que de trás pra frente! Contexto é tudo, hein doutor...
- VAI COMEÇAR DE QUAL ENTÃO?!
- Vinte...
- COMEÇA.
- Vinte, dezenhhhffffrrhhh...
E o paciente dormiu.
- Babaca.

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