Se, num dia em que a casa fica cheia de familiares, até aqueles que quase nunca vêm, como aquela minha tia que pensa que ainda tenho 12 anos, minha mãe estiver na cozinha - local da casa mais lotado nessas ocasiões - terminando de preparar uma panela de sopa, mesmo que eu seja o mais próximo do fogão pra
levar a panela pra sala, ela vai olhar pra todos ali e, com um olhar pensativo, pedirá esse favor a alguém que não seja eu. Não que eu tenha sido o protagonista daquela cena que eu - e imagino que muita gente - gostaria de ver um dia. Acho que não preciso descrever, mas em câmera lenta seria bem legal. Vou fazer em casa qualquer dia só pra filmar. Fato é que eu, com um prato de sopa na mão, demoro meia hora só pra andar uns 5 metros. Engraçado é que com a panela dá pra ir mais rápido. Tá aí uma ideia pra quem for fazer tese de doutorado sobre dinâmica de fluidos.
Mas eu acho que o meu histórico de pequenos desastres talvez justifiquem essa atitude da minha mãe. Situações clássicas como um fio atravessando uma sala de ponta a ponta à altura do tornozelo são um prato cheio pra mim. Uma faca na minha mão é sinônimo de auto-massacre (ainda não sei as regras do uso do hífen na última reforma ortográfica, pra quem se importa com essas coisinhas). Às vezes dá até pra pensar que sou grego. Não, não é porque eu falo coisas sem sentido e você usa aquela expressão de que até parece que eu estou falando grego, mas pelo ritual de quebrar pratos. Tá, exagerei. Nunca quebrei um prato, só lasquei, mas só um. Copos... Já deu pra imaginar. Eu agitando um litro de iogurte 'antes de abrir', sendo que ele já estava aberto é que não dá pra imaginar. ¬¬
Tudo isso foi só pra falar que eu sou desastrado - e, por sinal, exagerado - e um dia derrubei uma colher... Uma colher inesquecível.
Acontece que na época eu estava descobrindo uma das minhas maiores paixões: a música. Desde então, aprendi a apurar o ouvido e a ouvir melhor música, o que, pode não parecer, mas faz uma diferença tremenda. Confesso que adquiri essa mania de associar sons do cotidiano à música. Tipo quando a Madonna vai ao programa do David Letterman e mostra o colar, puxando o decote pro lado e o baixista faz o 'tum tum' do coração; quando a chaminé do navio te lembra uma tuba tocando uma nota em Sol, um alarme de carro ou uma sirene intercalando um Ré e um Dó; o 'tuuuuuu' do telefone, que pode servir pra afinar instrumentos de corda. A música de abertura do Grey's Anatomy e o final da "Pedro Pedreiro" - com os vocais fazendo o som do trem - são bons exemplos também.
Talvez a colher não tenha sido o início disso tudo, mas foi marcante. Só que na hora coloquei na pia e agora, depois de tanto tempo, não sei qual é a colher, nem se ainda existe. O que eu queria mesmo era jogar todas elas no chão, uma por uma, "AND AGAIN, AND AGAIN, AND AGAIN", até achá-la, só que descobri o
diapasão e comprei um.
Pode parecer meio louco, outros dizem que é "ouvido absoluto", mas o importante é a delícia de perceber música em tudo.
eu suspeito q todas as colheres fariam o mesmo barulho! mas testa aí =D
ResponderExcluire, relaxa, eu conheço mais pessoas q aprenderam a reconhecer as notas em tudo. parece divertido, mas pra mim parece difícil. requer concentração =P
boa sorte com esse desastre todo, mas nunk passe perto de mim com um prato de sopa, por favor!
beijos
Realmente. "a delícia de perceber música em tudo.", eu vejo um conto memorável a cada esquina. A capacidade de escreve-lo é agora minha preocupação.
ResponderExcluirAbraço.