segunda-feira, 1 de março de 2010

Essa humanidade...

Balançava a cabeça. Mas não era um balançar de quem acompanha uma música enquanto faz qualquer coisa só pra poder não só ouvir música; de quem acompanha, não só com o olhar, como uma forma de não perder nada, uma bolinha de tênis de mesa em pleno jogo; de quem vê e analisa e estranha algo ou alguém pela primeira vez; de quem involuntariamente cria mais um recurso pra marcar força e ritmo ao piano; de quem só é batimento cardíaco. Era de negação. Discórdia. De muitos e dele próprio. Tantas coisas tão erradas... Tudo e todos tão definidos... Tantos "todos", "ninguéns", "sempres", "nuncas", que já perderam sua valia. Todos encaixados em estereótipos e previstos como se fossem uma gota de chuva. Tantas gotas então... que essa chuva inunda o mundo e ninguém escapa. Tanto preconceito, tanta hipocrisia, tanta acomodação, tanta cegueira, tanta humanidade. E ele se pergunta se é humanidade ou a negação dela; se isso tudo é ser humano, ele não quer... e se pergunta se não querer ser humano já é ser humano. Pra onde quer que olhe ou toque, não percebe nada real. Todos são paredes de rochas escorregadias e penetráveis apenas por minúsculos poros que estão fechados na maioria das vezes. Fechados a comando de desculpas como educação e sociedade. Ele se vê completamente deslocado, vendo a negação em ver. Ele, frente a todos, se via em todos, tão humano (ou se negando a ser) quanto.
Mergulhava no prório universo e se via. Uma terceira pessoa. Uma experiência tão horrorosa quanto satisfatória. Aquele espelho não era mais tão distorcido e embaçado, mas lhe custou quebrar a própria imagem. Agora a cegueira não era tanta... mas a luz inédita dói. Dor que dá vontade imensa de expelir, quebrando essa carcaça, essa pedra. Dor de ver o mesmo horror de tudo em si. Dor de se negar.
É como se ele não fosse dali. Ninguém o entendia. Tem alguma coisa errada com ele. Tem alguma coisa errada com tudo. Se falar o que realmente pensa sobre certas coisas, já imagina as pessoas negando, correndo, desprezando, se inconformando. Então, ainda se vê como todos, na carcaça praticamente impenetrável, e horrorizado consigo mesmo por isso. É tão desconfortante sua situação, que pensa ser realmente compreensível essa cegueira toda. Compreensível mas não vale a pena. Ele se pergunta se é de sua responsabilidade fazer ver; qual seria o preço de se mostrar e de ser visto. Um nojo da definição, e ao mesmo tempo uma vontade louca de definir tudo e todos (é tão bom !), talvez como uma tentativa de fantasiar que é tudo tão simples, caindo na cegueira. Todos tem um pouco (ou muito) de tudo. É isso que irrita a todos. Bendita educação ! Que coisa tapada.
Qual o papel dele ali ? Ele tinha sequer algum ? É tudo tão verdadeiramente assustador ? Ele fazia parte daquilo tudo ? Ele sempre olhou mas nunca viu ?
Não imagina quantas são as cavernas da vida, mas lhe parece que a graça é sair de todas elas.

Narciso não ficou se admirando assim que se viu, mas ficou assustado em perceber que aquele era ele. Aquele a quem nunca tinha visto. Aquele pra quem todos sempre olhavam, mas ele nunca vira. Aquele a quem ninguém conhecia de fato. Nem ele.

Um comentário:

  1. É... que ironia não?
    Eu vivo a me perguntar oq será dessas pessoas que preferem continuar presas na escuridão quando a luz aparecer, vai ser um tanto caótico, masss, fazer oq né? Fomos sempre condicionados a isso msm...
    Só nos resta esperar...

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