domingo, 29 de agosto de 2010

Meu signo astrológico do zodíaco

Eu estava tentando lembrar o que me levou a querer saber mais sobre o meu signo. Se bem que "mais" não é a melhor palavra, já que eu não sabia nada dele. Naaada, nada, não. Quase nada. Se eu não soubesse nada (eu saberia tudo, então ?) não poderia dizer "meu" signo. Se é meu, é porque sei, no mínimo, a que faixa do ano ele corresponde. Tentei puxar da memória como surgiu esse interesse de clicar no primeiro site que me parecesse convincente no título pesquisar:

Eu estava na avenida Paulista. Os olhos embotados de cimento e tráfego amigos todos reunidos num restaurante. É o tipo de programa supervalorizado em determinadas situações, principalmente quando ele existe há meses ou até anos no plano das ideias. Todos entusiasmados só de imaginar as histórias, casos, contos, crônicas, piadas; tudo proporcionado pelo clima sinestésico, caloroso e amigável daquele lugar. Lugar novo, mas cada um ali tinha no outro um bom tanto de passado. E estavam prontos para fazer daquele presente mais um ponto de partida a caminho da memória de longo prazo.
Pediram carneiro e caranguejo (?!). E então aquele momento em que os olhos são maiores que a barriga, e depois de muita piada, novidade, lembrança, risada, gritaria, garfada, muito gole, tempero, sal, azeite extra-virgem... o silêncio. Silêncio de que duvida de si mesmo quando acreditou que os olhos eram tão grandes, tirando a prova de que realmente eram. Nunca comeram tanto naquele dia. Mas pra um pouco de drama, típico de quem quer esbanjar que não desperdiçou um restaurante, usam a palavra "vida". Mesmo que não tenham comido muito mais que o habitual, nunca comeram tanto na vida. Inclusive eu. Nossa, se fosse na balança teria que pagar em moeda de libra naquele momento (aham, Cláudia, senta lá); seria assustador ou satisfatório. No meu caso, satisfatório, já que sempre fui magro.
Todos dopados da tristeza pós-refeição. Estava passando propaganda eleitoral numa televisão perto da nossa mesa. Assitindo a toda aquela variedade de promessas, muita criatividade, espontaneidade, me virei para a rua, como quem não quer nada. Então vi uma das coisas mais inusitadas e distoantes para aquele contexto: um sagitário. Mas aí pensei que não havia nada demais em ver um sagitário passando em plena avenida Paulista. Até aí, tudo bem. O que me deixou extremamente intrigado foi isso: ele estava de colete. COLETE !!! Não é todo dia que se vê, passando logo em frente, um sagitário de colete ! Um colete de couro, que terminava logo acima do umbigo, deixando uma última fresta do corpo antes da saia xadrez eventual, preto-e-branco, resvalando por entre os tornozelos quase invencíveis ao foco. O híbrido se deslocava muito rapidamente. Descobri logo o motivo: algum tipo de atraso, pois tinha, saindo de um bolso interno do colete, à altura do peito, uma corrente de ouro que terminava num belo relógio, também de ouro, em uma das mãos da criatura, quase impermeável a tudo ao seu redor, preocupadíssima com o passar do tempo.
Ao passar, ouvi o sagitário dizer algo como "Ai ai ai, vou chegar atrasado, ele vai me matar !" Bom... nada demais. É normal alguém estar atrasado pra alguma coisa, ainda mais no centro econômico do país, onde quase tudo são ternos, sapatos engraxados, pastas, intrigas de trabalho e pernas às pressas. Mas, mas... ele fala ! ELE FALA !!! Um sagitário, tudo bem. Agora... com um colete, um relógio, e falando !?!? Ah, agora tenho que seguir esse cara. Chamei o pessoal, mas ninguém parecia me ouvir ou ver. Estavam todos atentos à propaganda eleitoral. Vou sozinho mesmo.
Ele entrou na estação Paulista do metrô. Vou atrás. Nossa, essas escadas nunca acabam !? É muuuuito fundo !!! E ele já sumiu em meio à multidão. Preciso chegar logo lá embaixo. Mas eu nunca chego. Tem algo de estranho aqui. Olhei em volta e várias paisagens se sobrepunham num mesmo espaço, por todos os lados pra onde me virasse, fazendo da escada o centro de um túnel vertical. A única paisagem que consegui discernir a ponto de reconhecer, foi a placa do Trópico de Capricórnio, que permaneceu ali por mais tempo que o resto. Logo depois, eu caí.

Foi como cair num enorme estofado, que, por um momento, se moldou a mim, mas logo em seguida era chão duro e seco. Será que o sagitário está viajando ? Pra onde, então ? Passou pelo Trópico de Capricórnio pra chegar em que lugar, exatamente ? Estava atrasado pra que ? Quem ia matá-lo pelo atraso ? Eu precisava saber. Finalmente consegui avistá-lo. Entrava no vagão do metrô, muito adiante de mim. Não fui no mesmo vagão, mas no mesmo trem. Isso me bastava.
A cada parada, olhava pra fora na tentativa de ver o sagitário, mas na maioria das vezes tudo o que via eram cabeleiras, correntes, piercings e estampas do Metallica, Scorpions, Megadeth, Behemoth, Led Zeppelin, Sandy e Junior e Deep Purple. Até que finalmente vi o híbrido saindo do trem. A estação ? Não sei. Não tinha nome. Mas as coisas estavam diferentes novamente. Agora não eram mais camisetas de qualquer banda, mas sim do Nirvana. Crianças segurando pirocópteros e embalagens de Kinder Ovo aos montes nas mãos. Absolutamente ninguém usando fones. Os sozinhos olhavam ao redor, e não pras próprias mãos, cheias de dedos digitadores.
Isso tudo me distraiu um pouco, mas não perdi o sagitário de vista. Ele saiu da estação, assim como eu. Passando em frente a um bar, vi o balconista dirigindo-se a uma televisão bem peculiar e mudando os canais: TV Colosso, Glub Glub, O Fantástico Mundo de Bob, O Mundo de Beakman, X-Tudo. Não, não pode ser. Até aceito a televisão ser antiga, apesar de parecer nova em folha; o balconista tendo que se levantar pra mudar de canal; mas e a programação !? Opa, ele entrou em algum lugar. Eu conheço aqui. É um planetário, mas esse lugar não existe mais. Agora é um aquário.
Logo que cheguei na porta, reparei que não era uma porta comum para um lugar público. Era uma porta dupla central, cercada de gaveteiros de cada lado. Tudo de madeira maciça, aparentemente envelhecida. Era um armário. Entrei. Muito frio, muita neve. Avistei logo o sagitário, que estava parado, impaciente, a poucos passos de mim. Cheguei sorrateiramente perto dele, com receio de me assustar e de assustar. Num gesto brusco e repentino, virou-se pra mim dizendo, num rugido alto e ríspido "Já era hora !!! Vamos, vamos !!!" "Vamos aonde ?" "Precisamos despistar a Feiticeira e chegar rapidamente até o Leão."
Montei nele e saímos em disparada por entre a floresta morta. No meio do caminho, várias paisagens se sobrepunham novamente. Entre elas, visualizei o restaurante e meus amigos. Ainda estavam lá, compenetrados na propaganda eleitoral. Estiquei o braço, e senti o calor urbano e amigável tomar conta de meu pulso. Saltei. Caí em frente ao restaurante, do lado de fora. Pulei a janela e entrei. Aparentemente ninguém viu meu feito. Impossível. "Ei, ninguém viu o que passou correndo logo aqui em frente ?" "Ah, o sagitário ?" "Sim..." "Vimos sim." "Ele estava de colete e relógio !!! Por que ninguém veio comigo assim que chamei ?" "Olha só: Maguila, Kiko do KLB, Mulher Pêra, Tiririca, Dinei, Kléber Bam-bam, Ronaldo Esper, Marcelinho Carioca e Raul Gil no horário eleitoral !!! Que sagitário ganha disso !?!?"

Talvez tenha sido algo do tipo.
Bom, de qualquer forma, soube um pouco mais a respeito do meu signo.

"A ti, Peixes, não foi por acaso que te deixei por último, pois te dou a mais difícil de todas as tarefas."
Aaaaaaaaaah, agora tudo faz sentido. Ficar por último e se ferrar mais que todo mundo ? Entendi. Já foi muito esclarecedor pra mim. Que sucinto, hahahahaha !

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