sábado, 2 de outubro de 2010

Quem sou eu pra confirmar ?

"Vote com consciência." Sempre que ouço essa frase me pergunto "Consciência de quê ?", e depois de pensar um pouco cheguei a uma resposta, ainda que capenga.
Hoje, de algumas coisas tenho consciência. Durante quase toda a minha vida escolar, as minhas atividades eram relativamente simples: amigos, muito video-game e lição de casa; num resumo bem grosseiro. Eu era educado, na escola, a dar valor a provas, notas, lições, formalidades, escrever certinho e bonito... Essa besteirada toda. Hoje em dia, basicamente substituí o video-game por mais lição de casa e música, e sempre tentando melhorar o meu relacionamento com as pessoas. Afinal, pra mim, o escrever certinho, o jogar muito video-game, o gosto musical, a religião, ou sei lá mais o que não estão numa lista de diferenciais quando se trata de alguém. A besteirada continua. Mas agora eu a vejo por pura necessidade, e não mais como algo a ser valorizado. Isso ainda vai me irritar muito, mas tudo bem.
E a política nisso tudo ? Durante a maior parte da minha vida escolar fui criança. Naturalmente, não era algo nada próximo de mim. Nunca tive interesse em assistir a propagandas eleitorais, ler ou discutir a respeito. Era sempre o assunto do "pula", "outro", "o próximo", "passa", "não, obrigado" na minha cabeça. Talvez isso seja resultado da tendência proposital de que tudo converge para que se pense mal de políticos, segundo alguns. E, na cabeça de uma criança como eu fui durante esse tempo todo, políticos e política é a mesma coisa. E muitos com quem eu convivia - crianças também, por sinal - sempre falavam muito mal da maioria dos políticos e sempre muito bem de algum deles. Obviamente, digo hoje. Aquelas crianças, afinal, repetiam tanto o que ouvia de tantos, principalmente dos pais. Mas aquelas crianças eram como eu, não eram ? Digo, amigos, brincadeiras, seja video-game ou não, e coisas da escola, certo ? E como falavam tanto sobre políticos ? Ou eu deveria falar alguma coisa também ? Ah, mas repeti muitas coisas também. Eu nem sabia o que estava falando, na verdade. Coisa de criança, sabe como é. Eu repeti muitas coisas que os meus professores diziam também. Mas aí eu já sabia o que estava falando, na minha mente de criança. Afinal, eu tinha de saber aquilo tudo, certo ? E assim foi durante muito tempo.

Acontece que esse tempo acabou há pouquíssimo. Claro que algumas coisas mudaram. Uma delas foi a minha percepção. Não sei dizer o quanto, mas mudou. Fui tendo uma ideia melhor de algumas coisas que resultam nessa rede de conversas aqui, ali, e ali mais adiante, nessas épocas de eleição: Uma delas é muito
assustadora, a meu ver. Eram mais papagaios do que eu pensava. Hierárquico, ainda por cima; há também, além da quantidade, a qualidade. É muito papagaio com discursos excelentes. Isso é ainda mais assustador, porque é um fenômeno não só abrangente, como muito bem feitinho também. Tudo muito bem disfarçado. Com teorias e ideias e reflexões ao léu. Tão disfarçado que me dá a impressão de que tudo é feito por eles mesmos, como a fofoca, que é o sistema de vigilância mais eficiente e rápido da História da Humanidade. Melhor que qualquer inteligência policial por aí; Papagaios repetindo e ouvindo repetições de outros tantos papagaios em todo o lugar, criando focos de pequenas discussões por toda parte. E naõ é repetição simplesmente do que se ouve, mas a repetição mais profunda possível: do pensamento, do comportamento.
E, como sempre, penso "De onde vem isso ?". Já que tenho consciência de que já fui um papagaio, tentei responder por mim. Eu repetia algumas coisas porque... de alguma forma, me impressionou. Talvez porque algumas besteiradas estavam, inconscientemente comigo. Achei "bonito, certinho, inteligente" ? Acho que acima disso tudo, me impressionou porque, com aquilo, eu poderia chegar ao ponto que a escola sempre, de certo modo, me ensinou que poderia atingir através do "bonito, certinho, inteligente e notas altas": pertencer a um bom grupo ! Acho que era isso. Eu ouvia e, no fundo, com aquilo eu queria mais era chamar a atenção. Coisa de criança. Mas... isso não é coisa só de criança. É coisa de adulto também ! Ah, por isso era uma rede hierárquica de papagaios. E isso também talvez explique o surgimento repentino desse fenômeno. Do nada, estão todos falando daquilo ! Claro, vira questão de sobrevivência. Afinal, é disso de que todos à volta falam, não é ? Mas quem começou a falar pra que todos falassem ? Talvez tenha sido a necessidade de se mostrar atualizado, entendendo bem do assunto, esbanjando opiniões. Porque todos têm de exibir seu lado sério, provando que não jogam conversa fora, como normalmente. Foi essa necessidade que começou a falar. Assim ninguém fica marcado pela vigilância autossuficiente que ronda por aí.
E eu ? Estou no meio disso tudo afinal, certo ? Mas... se durante a maior parte desse tempo as minhas maiores preocupações eram lições de casa, amigos, video-game e aprender a tocar instrumentos musicais, que condições eu tenho de sair falando alguma coisa, que não seja papo de papagaio ? Ah, as minhas lições de casa deveriam me ajudar, certo ? Mas... não sei porque, não me despertam interesse. Será que todos os meus amigos, na verdade, não eram papagaios, e eu é que nunca me interessei, desde criança, pelo futuro do meu país ? Isso é cobrado a uma criança ? Digo, de forma que ela saiba conscientemente de tudo ? Não é querer demais ? Ah, tem a televisão. E... é, só a televisão. Então porque tanta gente fala tão mal dos políticos se eles dizem coisas tão "bonitas" ? Depois eu entendi. Entendi a encarar a televisão de um modo bem eficiente: não encarar a televisão. E os discursos são "bonitos e inteligentes", mas, pelo que ouço falar, ninguém cumpre o que diz. Mas... quem é "ninguém" ? Posso usar essa palavra tão radical ? E o que dizem, exatamente ? Bom, televisão não é uma boa ideia. Revistas e jornais repletos de parcialidade também não. Me resta o meu  próprio filtro.

Mas o que eu faço então ? É que é uma situação meio urgente. É um negócio aí de 18 anos. É, dizem muitas coisas, no geral, positivas sobre essa idade. Mas pelo que eu percebi, não é bem por aí. A diferença é que, se agora eu me ferrar, me ferro sozinho. Mas, nesse contexto de política, dizem que depois dos 18, a gente deve votar. O que me leva de novo a buscar alguma informação sobre tudo isso, me sentindo bem na hora de votar. E isso adiciona mais uma característica, além de "repentino" a esse fenômeno. Agora ele é obrigatório. Ou seja, eu tenho que entender tudo, e de uma hora pra outra. Mas... Não quero ser um papagaio bem feitinho. Não é um assunto que eu tenha moral suficiente pra me intrometer, porque sei que, pra que eu entenda o mínimo que seja de um assunto, ouvir belos discursos não funciona. Telefones-sem-fio virtuais e uma dúzia de sites e livrinhos não me dá moral suficiente pra tanto. É um processo que não termina com 18 anos, como se daí em diante eu pudesse votar. É algo que, pra mim e todas aquelas crianças, começa. Aliás, começa conforme a vontade, seja com 18, 17, 16, 15 anos. Infelizmente, comecei tarde. Tarde pra quem decidiu "18" por mim.
Talvez eu tenha sido educado a ser tão discrente quanto tudo e a todos nisso. Mas sei que há coisas que não me deixam ver. Eu só tenho consciência de que não tenho consciência de nada. Melhor saber que não tenho do que achar que tenho. E é a partir daí que vou procurar fazer tão bem aquilo que me obrigam.
É nessa hora que não cumpro o meu papel de hipócrita e todos se afastam de mim. Ah, aquela frase... "Só sei que nada sei." ? É, acho que é.

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