"Vote com consciência." Sempre que ouço essa frase me pergunto "Consciência de quê ?", e depois de pensar um pouco cheguei a uma resposta, ainda que capenga.
Hoje, de algumas coisas tenho consciência. Durante quase toda a minha vida escolar, as minhas atividades eram relativamente simples: amigos, muito video-game e lição de casa; num resumo bem grosseiro. Eu era educado, na escola, a dar valor a provas, notas, lições, formalidades, escrever certinho e bonito... Essa besteirada toda. Hoje em dia, basicamente substituí o video-game por mais lição de casa e música, e sempre tentando melhorar o meu relacionamento com as pessoas. Afinal, pra mim, o escrever certinho, o jogar muito video-game, o gosto musical, a religião, ou sei lá mais o que não estão numa lista de diferenciais quando se trata de alguém. A besteirada continua. Mas agora eu a vejo por pura necessidade, e não mais como algo a ser valorizado. Isso ainda vai me irritar muito, mas tudo bem.
E a política nisso tudo ? Durante a maior parte da minha vida escolar fui criança. Naturalmente, não era algo nada próximo de mim. Nunca tive interesse em assistir a propagandas eleitorais, ler ou discutir a respeito. Era sempre o assunto do "pula", "outro", "o próximo", "passa", "não, obrigado" na minha cabeça. Talvez isso seja resultado da tendência proposital de que tudo converge para que se pense mal de políticos, segundo alguns. E, na cabeça de uma criança como eu fui durante esse tempo todo, políticos e política é a mesma coisa. E muitos com quem eu convivia - crianças também, por sinal - sempre falavam muito mal da maioria dos políticos e sempre muito bem de algum deles. Obviamente, digo hoje. Aquelas crianças, afinal, repetiam tanto o que ouvia de tantos, principalmente dos pais. Mas aquelas crianças eram como eu, não eram ? Digo, amigos, brincadeiras, seja video-game ou não, e coisas da escola, certo ? E como falavam tanto sobre políticos ? Ou eu deveria falar alguma coisa também ? Ah, mas repeti muitas coisas também. Eu nem sabia o que estava falando, na verdade. Coisa de criança, sabe como é. Eu repeti muitas coisas que os meus professores diziam também. Mas aí eu já sabia o que estava falando, na minha mente de criança. Afinal, eu tinha de saber aquilo tudo, certo ? E assim foi durante muito tempo.
Acontece que esse tempo acabou há pouquíssimo. Claro que algumas coisas mudaram. Uma delas foi a minha percepção. Não sei dizer o quanto, mas mudou. Fui tendo uma ideia melhor de algumas coisas que resultam nessa rede de conversas aqui, ali, e ali mais adiante, nessas épocas de eleição: Uma delas é muito
assustadora, a meu ver. Eram mais papagaios do que eu pensava. Hierárquico, ainda por cima; há também, além da quantidade, a qualidade. É muito papagaio com discursos excelentes. Isso é ainda mais assustador, porque é um fenômeno não só abrangente, como muito bem feitinho também. Tudo muito bem disfarçado. Com teorias e ideias e reflexões ao léu. Tão disfarçado que me dá a impressão de que tudo é feito por eles mesmos, como a fofoca, que é o sistema de vigilância mais eficiente e rápido da História da Humanidade. Melhor que qualquer inteligência policial por aí; Papagaios repetindo e ouvindo repetições de outros tantos papagaios em todo o lugar, criando focos de pequenas discussões por toda parte. E naõ é repetição simplesmente do que se ouve, mas a repetição mais profunda possível: do pensamento, do comportamento.
E, como sempre, penso "De onde vem isso ?". Já que tenho consciência de que já fui um papagaio, tentei responder por mim. Eu repetia algumas coisas porque... de alguma forma, me impressionou. Talvez porque algumas besteiradas estavam, inconscientemente comigo. Achei "bonito, certinho, inteligente" ? Acho que acima disso tudo, me impressionou porque, com aquilo, eu poderia chegar ao ponto que a escola sempre, de certo modo, me ensinou que poderia atingir através do "bonito, certinho, inteligente e notas altas": pertencer a um bom grupo ! Acho que era isso. Eu ouvia e, no fundo, com aquilo eu queria mais era chamar a atenção. Coisa de criança. Mas... isso não é coisa só de criança. É coisa de adulto também ! Ah, por isso era uma rede hierárquica de papagaios. E isso também talvez explique o surgimento repentino desse fenômeno. Do nada, estão todos falando daquilo ! Claro, vira questão de sobrevivência. Afinal, é disso de que todos à volta falam, não é ? Mas quem começou a falar pra que todos falassem ? Talvez tenha sido a necessidade de se mostrar atualizado, entendendo bem do assunto, esbanjando opiniões. Porque todos têm de exibir seu lado sério, provando que não jogam conversa fora, como normalmente. Foi essa necessidade que começou a falar. Assim ninguém fica marcado pela vigilância autossuficiente que ronda por aí.
E eu ? Estou no meio disso tudo afinal, certo ? Mas... se durante a maior parte desse tempo as minhas maiores preocupações eram lições de casa, amigos, video-game e aprender a tocar instrumentos musicais, que condições eu tenho de sair falando alguma coisa, que não seja papo de papagaio ? Ah, as minhas lições de casa deveriam me ajudar, certo ? Mas... não sei porque, não me despertam interesse. Será que todos os meus amigos, na verdade, não eram papagaios, e eu é que nunca me interessei, desde criança, pelo futuro do meu país ? Isso é cobrado a uma criança ? Digo, de forma que ela saiba conscientemente de tudo ? Não é querer demais ? Ah, tem a televisão. E... é, só a televisão. Então porque tanta gente fala tão mal dos políticos se eles dizem coisas tão "bonitas" ? Depois eu entendi. Entendi a encarar a televisão de um modo bem eficiente: não encarar a televisão. E os discursos são "bonitos e inteligentes", mas, pelo que ouço falar, ninguém cumpre o que diz. Mas... quem é "ninguém" ? Posso usar essa palavra tão radical ? E o que dizem, exatamente ? Bom, televisão não é uma boa ideia. Revistas e jornais repletos de parcialidade também não. Me resta o meu próprio filtro.
Mas o que eu faço então ? É que é uma situação meio urgente. É um negócio aí de 18 anos. É, dizem muitas coisas, no geral, positivas sobre essa idade. Mas pelo que eu percebi, não é bem por aí. A diferença é que, se agora eu me ferrar, me ferro sozinho. Mas, nesse contexto de política, dizem que depois dos 18, a gente deve votar. O que me leva de novo a buscar alguma informação sobre tudo isso, me sentindo bem na hora de votar. E isso adiciona mais uma característica, além de "repentino" a esse fenômeno. Agora ele é obrigatório. Ou seja, eu tenho que entender tudo, e de uma hora pra outra. Mas... Não quero ser um papagaio bem feitinho. Não é um assunto que eu tenha moral suficiente pra me intrometer, porque sei que, pra que eu entenda o mínimo que seja de um assunto, ouvir belos discursos não funciona. Telefones-sem-fio virtuais e uma dúzia de sites e livrinhos não me dá moral suficiente pra tanto. É um processo que não termina com 18 anos, como se daí em diante eu pudesse votar. É algo que, pra mim e todas aquelas crianças, começa. Aliás, começa conforme a vontade, seja com 18, 17, 16, 15 anos. Infelizmente, comecei tarde. Tarde pra quem decidiu "18" por mim.
Talvez eu tenha sido educado a ser tão discrente quanto tudo e a todos nisso. Mas sei que há coisas que não me deixam ver. Eu só tenho consciência de que não tenho consciência de nada. Melhor saber que não tenho do que achar que tenho. E é a partir daí que vou procurar fazer tão bem aquilo que me obrigam.
É nessa hora que não cumpro o meu papel de hipócrita e todos se afastam de mim. Ah, aquela frase... "Só sei que nada sei." ? É, acho que é.
Um bom exemplo de que diploma não significa muita coisa são os comerciais. Muitos deles passam longe de serem exemplos de publicidade. Obviamente, há publicitários que fazem jus a seus diplomas, produzindo um comercial mais genial que o outro. Mas como o trágico e o cômico estão muito próximos, alguns me marcaram, mesmo não sendo exatamente da forma que o publicitário da vez gostaria.
Comercial de carro. Do novo Uno. Os carros só aparecem de perto durante 5% do tempo do comercial !!! É mais ou menos "Cadê o... putz, já foi". E o resto ???
Mais detalhadamente: Três carros chegam (correndo, então nem dá pra ver direito), e então eles param. Aparece o interior do carro... tá, um pedacinho do painel só, por uma fração de segundo. Seja rápido ! Depois chegam várias pessoas (não me pergunte de onde ou como elas vieram), e começam a, literalmente, montar uma cidade. Sensacional !!! E pegam as coisas de dentro dos carros (mais uma amostra rápida do interior do carro, seja mais rápido ainda !) e vão desenrolando estradas, erguendo casas, fazendo acabamentos, todos alegres, e tudo sai como uma maquete pré-pronta. É demais. E aí... ué... o que é aquilo ? Ah, é. O carro. Passou de longe e em movimento. Isso é um teste de reflexos ?! Até que, depois dos 32 segundos de comercial (sendo 1 minuto o total), você nunca mais vai ver o carro direito. Exceto por uma cena, mas contente-se em difrenciar os carros só pela cor. Tem algumas metáforas entre a montagem da cidade e os atributos do carro, mas... CADÊ O CARRO !?!? Tá, assitiu a esse comercial ? Achou bom ? Então tente se lembrar de outro carro num comercial.
Deixe eu adivinhar: Uma estrada linda, com curvas suaves, em meio a um deserto infinito, um sol escaldante. E então ele vem, em alta velocidade, brilhando à luz, perfeito deixando uma nuvem de poeira por onde passa. Até que, de repente cruza um rio, espirrando água de um jeito simétrico, selvagem e arquitetônico para ambos os lados. Ou então, à medida que passa, transforma o deserto numa linda floresta arborizada, pulsando fauna e flora. Ótimo. Qual era o carro mesmo ? Lembrou de um ou de vários ?
Comercial de Activia. Uma mulher na praia, de biquíni e tanga. Prestes a entrar no mar e, se não me engano, está com crianças. Surge outra mulher, e aborda a primeira com a seguinte pergunta: "Como vai o intestino ?" COMO ASSIM !? Olha, não sei se sou anormal, isolado, careta ou implicante, mas considerando o contexto, acredito que essa pergunta não venha a calhar. Aliás, quando essa pergunta vem a calhar ? Numa conversa entre médico e paciente. E só. Mas, como se não bastasse a pergunta, A OUTRA MULHER RESPONDE !!! ELA RESPONDE !!! "Ah, está regular." Com o maior sorriso na cara !!! Mas que... que... que situação é essa !? Ambas sorridentes, conversando sobre as atividades intestinais a caminho do mar !!! Ah, que comercial de merda... (desculpe, não resisti =P) Tirando o fato de que só mulher tem problemas com o intestino. Claro. Homens falariam "Putz, não tô conseguindo cagar.", sem sombra de dúvidas. Aí fica feio pra um comercial. Talvez homens só tenham diarreia. ¬¬
Bom... talvez a responta esteja além do meu alcance.
Comercial de curso de inglês. Um garoto avista uma garota. Se encanta, ela é linda. Não pensa duas vezes. Se aproxima, e, de forma gentil e com um sorriso estampado no rosto, se apresenta e pergunta o nome dela. Ela corresponde à simpatia, e se pronuncia. Essa não. Ela não fala português ! E agora !? Ele pensa, pensa, é tudo muito rápido, ele precisa de uma saída, ela não pode saber que ele não sabe falar inglês, e ela é perfeita ! Ele não pode perder essa... pensa, pensa, rápido ! E, numa fração de segundo, ele dá O Beijo nela. E, a qualquer tentativa de pronuciamento dela, ele a beija novamente. Um beijo, acima de tudo, longo. Resolvido. Durante o relacionamento, é só fazer isso ao sinal de qualquer conversa. Claro, o comercial vendia o curso para que você nunca precisasse perder uma oportunidade dessas assim.
Assim que assisti a isso, pensei que, ao contrário de muitos comerciais, esse era, de certa forma, bem real. Imagino que o que vou falar agora provavelmente não fazia parte da intenção do comercial.
Há muitos casais que são exatamente assim. O Beijo. Pegação aqui e ali. Sem trégua. É claro que o aspecto físico é saudável, legal e tudo mais. E também não estou generalizando isso a todos os casais. Mas é triste pensar que, de fato, há muitos e muitos relacionamentos por aí que se resumem a isso: o contato físico eterno como reflexo da impossibilidade de conversa entre eles. Muitas vezes não é só reflexo, mas há a consciência disso por parte de um deles ou até de ambos. Pior: eles falam a mesma língua !!! Ou... é só impressão ? E o resto ? E O RESTO !? Aí um belo dia um deles decide admitir a falta de conversa e pronto. Fim.
Eu estava procrastinando (posso arriscar dizer que essa é uma palavra que nunca escrevi ou digitei antes, apesar de saber o que significa. Lembrar se já falei, é demais pra minha memória. Se bem que é muito difícil saber o significado de uma palavra sem nunca ter nem pronuciado, mas tudo bem; é o tipo de palavra que a gente eu só uso como quem ganhou um relógio novo e quer infernizar mostrar as horas pra todo mundo. E não numa situação normal, onde me perguntam se tenho horas pra dar e respondo "só depois da meia-noite" "sim", sem dizer necessariamente as horas, mas numa situação onde eu tomo a iniciativa de perguntar pra todo mundo se querem saber as horas. Simplesmente irritante feliz.) Tá, parei.
Então... (sensação de quem está andando na rua e conversando e passou há muito do destino e só agora começa a perceber. Sim, desabafo) eu estava procrastinando. Assim mesmo, intransitivo. Só pra tentar dar uma abrangência máxima pro termo. (Nossa, "procrastinando" é trava-língua, tenta.) Tá, parei, juro mesmo.
Me deu uma vontade de escrever. Mas já tive essa vontade várias vezes e ultimamente não tem dado certo. Não sei ao certo o porquê. Talvez por ser tantas coisas pra falar que nem sei por onde começar, mas não vem ao caso. Enfim, muita vontade, mas sem assunto. É, bem estilo motel/balada/pornô (não que os dois primeiros não sejam). Seria até ideal pro dia do sexo. Aí copiei tive uma ideia: Jogar no google "O Felipe é" e ver o que aparece. Aqui estão alguns resultados selecionados:
- "O Felipe é Massa !": Já me falaram que sou rápido com piadinhas, bom com trocadilhos, coisas do tipo. Opiniões à parte, mas fato é que eu faço muitas piadinhas e trocadilhos. Mas não é piada pronta; não dá pra chegar pra mim e dizer "conta uma das suas milhares de piadas". Não mesmo. Claro que conheço certas piadas, mas não é disso que estou falando. São as coisas de momento, sabe ? Bem espontâneo, e aos montes, diga-se de passagem. Até pra ser grosso com alguém eu posso ser em forma de piada. Mas eu tenho que estar muito, muito puto pra isso. A ponto de perder a noção. O triste é quando pensam que eu sou só piada.
- "O Felipe é surdo": Isso me lembra de uma das coisas que mais odeio: gritinhos histéricos. Sabe quando algum homem, seja por incontinência sexual, carência disfarçada, status em algum grupo social específico, tentativa de disseminação genética, ao ver uma mulher que julga gostosa bonita, grita (sim, grita, independentemente da sua distância do alvo) coisas do tipo "Ôôôhhhh, lá em casa, hein...", "Ôôôôhhhh, delícia..." ? Então... pra mim não tem diferença absolutamente nenhuma entre isso e os gritinhos histéricos delas.
Seja em shows ou em cinemas, quando aparece o ídolo, lá vem aquele som de depêndência, ilusão, sexualidade reprimida, carência mal-resolvida, facas cortando laranjas pela metade. Claro que em certas situações, essas mesmas coisas têm uma intenção completamente diferente: fazer piada. Um bom exemplo são as cantadas de pedreiro (agradeço que exista a maioria, aliás), considerando, claro, numa situação de piada, e não quando um verdadeiro pedreiro as diz com suas intenções mais do que claras. Com intenção de piada, tudo bem; quero mais é dar risada mesmo.
Agora enfatizando o "surdo" da definição que encontrei, foco mais nas garotinhas (e, infelizmente, já vi algumas já fora do atributo "garotinha" há muito fazerem a mesma coisa) que gritam histericamente e a sério. Olha, ter desejo sexual todo mundo tem. O que é ótimo, aliás. E todo mundo acha ótimo, apesar de muitos negarem. Aliás, se alguém não tem sexualidade (não sei se o termo, a rigor, é esse), ou não acha bom que os outros tenham, está doente. Sério mesmo. Quem não está doente e se passa como doente também está doente. Não estou dizendo que se deve explicitar o desejo sexual; de forma alguma. Só aprender a lidar com isso. Agora... deu aquele gritinho a sério ? VAI FAZER JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS, PEDIR PRA TE COMEREM LOGO, COMPRAR UM VIBRADOR !!! E com certeza eu poderia dizer milhões de outras soluções aqui, mas acho completamente desnecessário. Aliás, tempos difíceis. Repressão da sexualidade feminina e do sentimentalismo masculino. Assim não se chega a nada.
"Moça, você está com muito catarro ?" "Não, por que ?" "É que, vendo daqui, o seu peito parece meio cheio." É claro que eu vou rir disso, hahaha !
- "Felipe é possível concertar o meu vídeo ?" (sic infinito): Hahahahaha ! Eu ia dizer "sem comentários", mas não resisto. É pra fazer a edição da trilha sonora do seu vídeo ? Só eruditas ? E sou possível sim e não estou quebrado, fique sabendo. (Nada contra o falar ou escrever errado, só acho engraçado.)
- "O Felipe é intocável...": É importante perceber que "intocável" pode significar coisas diferentes por aí. Ainda bem que não estou na Índia.
- "O Felipe é tímido": Verdade, verdade...
- "O Felipe é um assunto da diretoria": Isso me faz lembrar do colégio, principalmente até a oitava série. Eu era o que fazia todas as lições dentro do prazo, só conversava quando podia, e se certas pessoas vieram conversar comigo, pode ter certeza de que o naipe da conversa era algo ligado a cópia de trabalho e lição ou explicar a matéria da prova do dia seguinte, e nada mais. E as pessoas supondo várias coisas a meu respeito, inclusive sobre a questão de ser nerd. E eu tendo que explicar que não era nerd. Bom, nem sei o que é ser nerd; discussões tolas.
E aí, um fenômeno interessante: hoje, talvez eu seja o mesmo nerd que cada um definiu na própria cabeça sem ao menos me ouvir antes. E pra mim ? Hoje, algumas daquelas pessoas são as mesmas que defini na minha cabeça, com base em poucas conversas e muita brincadeira imbecil ? Não posso pensar assim. Só estaria perpetuando o erro. Não é nada fácil, mas é o certo. E não se trata de ingenuidade, mas apenas de acreditar em coisas que, infelizmente, são tratadas como impossíveis por muitos.
Aliás, o que o "nerd" pensa hoje sobre escola, vestibular, universidade, sistema de ensino e diplomas impactantes pode ser chocante pra eles. Que não seja, por favor.
Ah, e nunca foi "assunto de diretoria". Não pelos motivos que normalmente pensam no contexto de escola. Hoje não me orgulho disso, não.
"O nosso mundo exterior reflete o nosso mundo interior."
Ah, então... se o meu mundo estiver uma merda é só tomar um porre de Activia que resolve ?
Eu estava tentando lembrar o que me levou a querer saber mais sobre o meu signo. Se bem que "mais" não é a melhor palavra, já que eu não sabia nada dele. Naaada, nada, não. Quase nada. Se eu não soubesse nada (eu saberia tudo, então ?) não poderia dizer "meu" signo. Se é meu, é porque sei, no mínimo, a que faixa do ano ele corresponde. Tentei puxar da memória como surgiu esse interesse de clicar no primeiro site que me parecesse convincente no título pesquisar:
Eu estava na avenida Paulista. Os olhos embotados de cimento e tráfego amigos todos reunidos num restaurante. É o tipo de programa supervalorizado em determinadas situações, principalmente quando ele existe há meses ou até anos no plano das ideias. Todos entusiasmados só de imaginar as histórias, casos, contos, crônicas, piadas; tudo proporcionado pelo clima sinestésico, caloroso e amigável daquele lugar. Lugar novo, mas cada um ali tinha no outro um bom tanto de passado. E estavam prontos para fazer daquele presente mais um ponto de partida a caminho da memória de longo prazo.
Pediram carneiro e caranguejo (?!). E então aquele momento em que os olhos são maiores que a barriga, e depois de muita piada, novidade, lembrança, risada, gritaria, garfada, muito gole, tempero, sal, azeite extra-virgem... o silêncio. Silêncio de que duvida de si mesmo quando acreditou que os olhos eram tão grandes, tirando a prova de que realmente eram. Nunca comeram tanto naquele dia. Mas pra um pouco de drama, típico de quem quer esbanjar que não desperdiçou um restaurante, usam a palavra "vida". Mesmo que não tenham comido muito mais que o habitual, nunca comeram tanto na vida. Inclusive eu. Nossa, se fosse na balança teria que pagar em moeda de libra naquele momento (aham, Cláudia, senta lá); seria assustador ou satisfatório. No meu caso, satisfatório, já que sempre fui magro.
Todos dopados da tristeza pós-refeição. Estava passando propaganda eleitoral numa televisão perto da nossa mesa. Assitindo a toda aquela variedade de promessas, muita criatividade, espontaneidade, me virei para a rua, como quem não quer nada. Então vi uma das coisas mais inusitadas e distoantes para aquele contexto: um sagitário. Mas aí pensei que não havia nada demais em ver um sagitário passando em plena avenida Paulista. Até aí, tudo bem. O que me deixou extremamente intrigado foi isso: ele estava de colete. COLETE !!! Não é todo dia que se vê, passando logo em frente, um sagitário de colete ! Um colete de couro, que terminava logo acima do umbigo, deixando uma última fresta do corpo antes da saia xadrez eventual, preto-e-branco, resvalando por entre os tornozelos quase invencíveis ao foco. O híbrido se deslocava muito rapidamente. Descobri logo o motivo: algum tipo de atraso, pois tinha, saindo de um bolso interno do colete, à altura do peito, uma corrente de ouro que terminava num belo relógio, também de ouro, em uma das mãos da criatura, quase impermeável a tudo ao seu redor, preocupadíssima com o passar do tempo.
Ao passar, ouvi o sagitário dizer algo como "Ai ai ai, vou chegar atrasado, ele vai me matar !" Bom... nada demais. É normal alguém estar atrasado pra alguma coisa, ainda mais no centro econômico do país, onde quase tudo são ternos, sapatos engraxados, pastas, intrigas de trabalho e pernas às pressas. Mas, mas... ele fala ! ELE FALA !!! Um sagitário, tudo bem. Agora... com um colete, um relógio, e falando !?!? Ah, agora tenho que seguir esse cara. Chamei o pessoal, mas ninguém parecia me ouvir ou ver. Estavam todos atentos à propaganda eleitoral. Vou sozinho mesmo.
Ele entrou na estação Paulista do metrô. Vou atrás. Nossa, essas escadas nunca acabam !? É muuuuito fundo !!! E ele já sumiu em meio à multidão. Preciso chegar logo lá embaixo. Mas eu nunca chego. Tem algo de estranho aqui. Olhei em volta e várias paisagens se sobrepunham num mesmo espaço, por todos os lados pra onde me virasse, fazendo da escada o centro de um túnel vertical. A única paisagem que consegui discernir a ponto de reconhecer, foi a placa do Trópico de Capricórnio, que permaneceu ali por mais tempo que o resto. Logo depois, eu caí.
Foi como cair num enorme estofado, que, por um momento, se moldou a mim, mas logo em seguida era chão duro e seco. Será que o sagitário está viajando ? Pra onde, então ? Passou pelo Trópico de Capricórnio pra chegar em que lugar, exatamente ? Estava atrasado pra que ? Quem ia matá-lo pelo atraso ? Eu precisava saber. Finalmente consegui avistá-lo. Entrava no vagão do metrô, muito adiante de mim. Não fui no mesmo vagão, mas no mesmo trem. Isso me bastava.
A cada parada, olhava pra fora na tentativa de ver o sagitário, mas na maioria das vezes tudo o que via eram cabeleiras, correntes, piercings e estampas do Metallica, Scorpions, Megadeth, Behemoth, Led Zeppelin, Sandy e Junior e Deep Purple. Até que finalmente vi o híbrido saindo do trem. A estação ? Não sei. Não tinha nome. Mas as coisas estavam diferentes novamente. Agora não eram mais camisetas de qualquer banda, mas sim do Nirvana. Crianças segurando pirocópteros e embalagens de Kinder Ovo aos montes nas mãos. Absolutamente ninguém usando fones. Os sozinhos olhavam ao redor, e não pras próprias mãos, cheias de dedos digitadores.
Isso tudo me distraiu um pouco, mas não perdi o sagitário de vista. Ele saiu da estação, assim como eu. Passando em frente a um bar, vi o balconista dirigindo-se a uma televisão bem peculiar e mudando os canais: TV Colosso, Glub Glub, O Fantástico Mundo de Bob, O Mundo de Beakman, X-Tudo. Não, não pode ser. Até aceito a televisão ser antiga, apesar de parecer nova em folha; o balconista tendo que se levantar pra mudar de canal; mas e a programação !? Opa, ele entrou em algum lugar. Eu conheço aqui. É um planetário, mas esse lugar não existe mais. Agora é um aquário.
Logo que cheguei na porta, reparei que não era uma porta comum para um lugar público. Era uma porta dupla central, cercada de gaveteiros de cada lado. Tudo de madeira maciça, aparentemente envelhecida. Era um armário. Entrei. Muito frio, muita neve. Avistei logo o sagitário, que estava parado, impaciente, a poucos passos de mim. Cheguei sorrateiramente perto dele, com receio de me assustar e de assustar. Num gesto brusco e repentino, virou-se pra mim dizendo, num rugido alto e ríspido "Já era hora !!! Vamos, vamos !!!" "Vamos aonde ?" "Precisamos despistar a Feiticeira e chegar rapidamente até o Leão."
Montei nele e saímos em disparada por entre a floresta morta. No meio do caminho, várias paisagens se sobrepunham novamente. Entre elas, visualizei o restaurante e meus amigos. Ainda estavam lá, compenetrados na propaganda eleitoral. Estiquei o braço, e senti o calor urbano e amigável tomar conta de meu pulso. Saltei. Caí em frente ao restaurante, do lado de fora. Pulei a janela e entrei. Aparentemente ninguém viu meu feito. Impossível. "Ei, ninguém viu o que passou correndo logo aqui em frente ?" "Ah, o sagitário ?" "Sim..." "Vimos sim." "Ele estava de colete e relógio !!! Por que ninguém veio comigo assim que chamei ?" "Olha só: Maguila, Kiko do KLB, Mulher Pêra, Tiririca, Dinei, Kléber Bam-bam, Ronaldo Esper, Marcelinho Carioca e Raul Gil no horário eleitoral !!! Que sagitário ganha disso !?!?"
Talvez tenha sido algo do tipo.
Bom, de qualquer forma, soube um pouco mais a respeito do meu signo.
"A ti, Peixes, não foi por acaso que te deixei por último, pois te dou a mais difícil de todas as tarefas."
Aaaaaaaaaah, agora tudo faz sentido. Ficar por último e se ferrar mais que todo mundo ? Entendi. Já foi muito esclarecedor pra mim. Que sucinto, hahahahaha !
Não sou de achar criança feia (também não saio procurando por aí). Mas a filhinha do Roberto Justus... Bom, talvez ela não se encaixe no que eu classificaria como beleza. É algo bem relativo, que se faz na cabeça de cada um. Algo construído, parcial. Essa teoria é a que me vem na tentativa de confortar a garotinha na minha cabeça. "Ela não é bonita. Pra mim." E então me vem um pensamento do tipo cala-boca-o-mundo-é-uma-merda-mesmo: "Não, ela é feia mesmo. Por mais relativa que a beleza possa ser."
Finalmente, mesmo depois desse pensamento horrível, encontrei uma saída, uma luz no fim do túnel, uma porção - grande - de esperança pra ela, algo concreto, consistente: na idade dela eu era bonito.