sábado, 28 de setembro de 2013

Só pra dizer que...

... "manja dos paranauê" é uma das melhores expressões que já ouvi. A pessoa que criou isso manja dos paranauê.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

As placas do subway

Às vezes eu almoço no Subway. Não, não vou entrar na discussão sobre ser possível "almoçar de verdade" no Subway. E não vou mais escrever "Subway" com maisúscula só porque é uma marca. Isso é ridículo.
Em um bela dia eu estava sentado de frente pra porta de saída. Mas reparei uma coisa que tem graves consequências: a placa dizia "Saída de emergência". E, apesar de ser uma porta dupla, a placa estava acima e bem entre as portas. Então, tecnicamente, a porta dupla como um todo era a saída de emergência.
Pensei "qual seria uma situação de emergência?" e cheguei à conclusão de que, pelo menos, eu não deveria estar calmo (e a caminho do desespero), pra conseguir sair dali. Cara, tem que ver isso aí...
Num outro dia, vi que tinha uma outra placa: "Fique tranquilo. O nosso pão não contém lactose."
Não vem muito ao caso com a história mas antes vou falar o que me passou pela cabeça antes do principal: beleza, o pão pode não conter lactose, mas e o resto? E o termo "intolerância à lactose" é meio estranho, tanto que o Rafinha Bastos interpreta isso num dos vídeos dele... um cara ficando puto conforme a caixa de leite se aproxima, hahahaha... Mas agora vem o que me incomodou: o "fique tranquilo".
Então supondo que eu seja intolerante a lactose, e entro naquele subway. Leio a placa da lactose e fico tranquilo, maravilha. Aí como e? E? E agora pra sair?
Que absurdo! Isso é uma contradição! Me deixam tranquilo pra depois me exigir sair do sério? Já entendi! Isso é uma estratégia de vendas. É um loop infinito; o intolerante à lactose não sai mais de lá, e se vê obrigado a consumir; ou, caso vá ficando nervoso - pra poder sair - vai pedir um copo d´água ou um suco
pra se acalmar.
Lamentável...

Obs.: A placa de saída foi piada minha, e a outra parte um amigo completou.

domingo, 15 de setembro de 2013

O cara do Carandiru

Ontem à noite eu estava pra entrar na Fnac da Trianon, e vi uma mão estendendo uma revista, naquele gesto que sempre imagino sendo o corpo em desespero velado. À medida em que eu olhava pra direita, e o desespero - sempre velado - daquela mão aumentava, era então um braço e então um homem. Um homem
muito simples.
Pus a mão "em espanto", dizendo "não, obrigado" a ele.
É inimaginável em quantas frações o tempo pode se decompor, mas acredito que na menor delas, que veio logo em seguida disso, descendo a escada, me senti um idiota. Eu sempre me disse pra pegar o que essas pessoas oferecem, por mais que não me interesse. Porque é inevitável que pelo menos alguns (se não a maioria) que pegam esses papeis não estejam nem aí pro que está escrito neles. O papel publicitário dos que entregam vai por água abaixo em muitos casos. Então sim, eu só pego o papel pra que aquela pessoa se sinta mais perto de terminar seu dever.
E mesmo assim eu não peguei aquele papel. Mas o que me deixou mais puto foi eu estar com uma pasta. Uma pasta! Todas as desculpas preguiçosas que o meu auto-engano seria capaz de me dar desapareceram. "Seu idiota, por que não pegou aquela revista?"
Naquela mesma fração de tempo, pensei "na volta eu pego, porque eu vou sair por aqui mesmo".
Agora aquele homem estava à minha esquerda, um piso acima de mim (e acima de mim, que sou um idiota, porque não?). As pessoas ali à minha frente, passando por ele ("porque vocês não pegam a revista, seus imbecis!"), e o mesmo braço estendido, o mesmo desespero velado. Não, não, estou quase aí.
Passei olhando pra ele e pegando a revista. Porque era só pegar, certo? Não, não era. Ainda bem.
Nós dois com as mãos em pontas opostas da revista, ele me disse "conhece a revista?"; eu tinha quase certeza de que uma vez, no vão do MASP, recebi uma daquelas das mãos de um outro homem que me parecia muito alheio aos outros, talvez por isso, feliz. Mas disse "não, não conheço". Nesse momento eu quase pude pegar aquele desespero velado, mas se transformou em algo diferente, etéreo e bom, de uma fração de tempo - daquelas - pra outra. "é de uma organização que cuida de moradores de rua. Você paga 4 reais e eu fico com 3". Eu fui pegando o dinheiro, e pensando no que perguntar pra ele, porque (e essa não é a primeira vez que sinto isso) me veio uma vontade de saber sobre aquele cara. Afinal, ele foi morador de rua em algum momento da vida pra estar ali na minha frente com aquela revista.
"E como que você conheceu esse projeto?" enquanto pensava se a aparência dele era de alguém de 65 anos ou de alguém de 40 que viveu um bom tanto na rua. "Eu fiquei 32 anos no Carandiru". Nessa hora, vi o quanto idiota eu ainda poderia me sentir. De alguma forma fiquei minúsculo na frente daquele cara. Imaginando que certamente ele venceu muito mais do que eu, e muito mais do que muita gente que eu conheço; isso que me diminuiu tanto, porque qual é a minha noção de vitória, de conquista individual até então? Ridículo. Me senti ridículo, e senti que o meu mundo, de alguma forma, é algo que flutua por aí e às vezes esbarra no topo da minha cabeça, mas fora aquele momento, eu flutuo junto.
"Cumpriu a pena toda?", sorrindo, e que sorriso! ele disse "cumpri. Foi esse cara da capa que me interpretou no filme". Nossa, como eu sou absurdo! Eu sou um exagero, é isso o que eu sou! "E como que você veio parar aqui?" uma vontade imensa de perguntar muitas outras coisas que eu só vi em livros, de forma muito "elegante", me veio. "Depois do Carandiru, fui morar na rua" e o sorriso continuava. Esse cara deve saber o que é ser feliz, ah deve. Esse monte de diplomas discutindo a felicidade pelas academias afora... que bando de alienados! Como que pode isso?!
Eu queria perguntar pra ele se a cadeia realmente funciona ou se piora as coisas; como que foi o Drauzio por lá; se ele já leu o livro do Carandiru; o que ele acha de a cadeia ter função de "reintegração social" sendo que um cara que sai dela vai morar na rua...
"Eu tenho um blog. Tem o endereço aqui, ó... Entra lá, escrevo todo dia" olha só que maravilha!
"Opa! Pode deixar que entro, sim! Tem textos seus na revista?"   "Tem, tem sim"   "Meus parabéns..." Eu precisava muito saber o nome dele, e olhei na camiseta: José Aguiar "... José, meus parabéns."
Um tapinha de empolgação dele no meu ombro, um aperto de mãos.
Eu volto lá logo. Ainda quero fazer umas perguntas.
"Seu José, o senhor é feliz?"

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Anestesia Mental

Ninguém me disse pra pensar sobre isso; nunca ouvi ninguém falar sobre isso, mas em algum momento na vida eu pensei nisso. Aquelas coisas que a gente acha que só a gente pensou e pode acontecer (lindo, inclusive) de mais alguém ter pensado nisso também, mas também sem nunca compartilhar. Tô falando sobre isso:
Por que somos capazes de rir de uma simples piada, ou nos sentir bem numa roda de amigos, logo depois de ver na TV a notícia de crianças que foram assassinadas? Como isso funciona? Por que a distância influencia tanto?
Penso nisso não há muito tempo, e não me lembro de nada que tenha me levado a pensar nisso. A não ser alguns programas de televisão que beiram a bipolaridade. E eu temo pelos telespectadores que esses programas podem criar. Em um momento, a morte de uma criança é sentida no fundo da alma, com revolta
do apresentador pseudopolitizado, pseudossensibilizado, pseudotudo, e logo depois a mudança do cardápio do casamento de um jogador do futebol é posta em pauta. Isso é pura loucura. E pior é que quem assiste talvez nem note isso.
Mas de certa forma, em outra escala, todos temos essa loucura. Não de forma - arrisco dizer - maldosa e intencional como nos programas de TV. Mas temos. E me pergunto de onde vem essa "imunidade psicológica". É um absurdo eu estar aqui agora, me preocupando em escrever algo que nem vai causar impacto na vida de pessoas que agora mesmo estão morrendo, seja lá como. Se divertir, e assassinatos; chuva com roupa no varal, e estupros; armar a árvore de natal, e fome.
Eu sei disso tudo. Mas o comportamento segue, e também sei que é natural.
Mas por quê?
E a distância é o fator que mais influencia nisso. Claro que me refiro a "distância" no sentido de "proximidade sentimental, familiaridade", mas a distância física também serve muito bem.
Se a morte de um desconhecido é noticiada na TV, dali a pouco a sua maior preocupação vai ser não derrubar um pouco da sopa na toalha enquanto leva a concha até o prato (não estou dizendo que você vai se importar com a morte da pessoa depois disso, porque não vai). Mas se você vir alguém, mesmo desconhecido, morrer na sua frente, pode te dar muitos dias de pesadelos e virar histórias pros seus netos ouvirem. Imagina então só se for alguém próximo a você?
De onde vem essa "anestesia mental"? Claro que se considerarmos alguém que perde um pedaço da alma com cada desgraça do mundo, seria outro absurdo. Mas me pergunto se essa anestesia não corre o risco de estar em altas doses (se é que já não está)...
Aliás, fiquei feliz de saber que um filme trata, de certa forma, desse assunto. "A Caixa". É meio viagem, mas recomendo.
De qualquer maneira, mesmo que respondam todos os porquês dessa minha dúvida, ainda é um absurdo e sempre vai ser. Estou inserido nele, é assustador, e vou tentar fazer algo a respeito.

Escrever

É... Faz um tempinho que não venho aqui...
Não é por falta de querer nem por esquecimento. Basicamente é porque dá trabalho escrever. A primeira pessoa que talvez tenha dito isso, que eu li - "talvez" porque as frases e seus autores, na internet, podem não ter relação alguma - foi a Clarice Lispector. Foi realmente ela que disse isso? Não importa. E além disso, estou numa onda de ler Stephen King de novo. O cara me vem com mais uma história d'A Torre Negra - uma das melhores histórias que já li até então - e lógico que li. Em alguns momentos - rápidos ou não - incorporo algumas coisa, me empolgo com elas. E nessas férias, me empolguei (de novo) com Stephen King.
Aí é aquela coisa de ver vídeos do cara, repensar suas histórias, desejar ler todos os livros... E confirmar que escrever dá trabalho. Porque ele diz "se quiser se tornar um escritor, deve fazer três coisas: ler muito, escrever muito, e se empolgar com isso." e também sobre o ato de escrever ser aperfeiçoado se feito com frequência. Mais uma vez: Stephen King disse isso? Ok, mas não é isso que importa. O que importa é que eu sinto isso desde que me propus a escrever. Talvez seja o meu jeito, ou talvez esse trabalho todo seja realmente o escrever propriamente dito, o verdadeiro.
Por isso eu não tenho vindo aqui. Entrei de férias - de um semestre que realmente tomou muito do meu tempo livre - dia 19, e tenho duas semanas pra aproveitar.
Tive muitas ideias pra por aqui? Sim. E em muitos casos me acusei de preguiça, falta de inspiração... Mas não era nada disso... Era falta da energia necessária pra me debruçar sobre um texto invisível e fazer força, força, pra que ele venha. Essa energia estava sendo usada pra outras coisas. Simples assim. Talvez eu não tenha tido uma grande ideia a ponto de vir aqui mesmo na correria do semestre... Mas uma grande ideia também pode exigir muita energia, mesmo vindo do nada. Eu sinto isso.
Eu poderia vir e escrever sobre nada? Sim (e pode ser muito importante fazer isso), mas acho que nem energia pra isso sobrou.
Percebo que escrevo com esse esforço... Mesmo que o assunto seja nada. Talvez eu queira um algo-a-mais, ou é algo de momento, que não tem a ver com o texto em si, mas com o ato de escrever ("O importante da arte é exprimir. O que se exprime não interessa").
O que dá mais trabalho é que, mesmo nesse gasto de energia com tantas coisas, eu sempre quero escrever.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Caos mental


Minha mãe chega e diz que o Hugo Chavez morreu, e na hora eu imaginei o Juca Chaves, sei lá porquê hahahahaha, que merda. O Alison conseguiu trocar o vale refeição por dinheiro pra comprar o Play3, genial! Hahahaha, foda. "Everybooooooooooodyyyy, move-your-feet'aaand feel uniiiiiteeeed, OOOOO-oooo-OOOOO-oow"... O cara me liga, eu falo "ALÔ!" porque não tava conseguindo ouvir nada, e aí ele fala, muito relutante na própria pergunta: "Andréia?" aaaaaah, cetálooooco... Eu lá tenho voz de Andéia, amigão?! O prazo pro meu livro chegar é hoje. Puta merda, se é pra chegar no último dia, não me diz que é "até" dia tal... Maldita Santana! Eu achando que não vou mais pra lá, naquela faculdade de merda, e os caras me ligam pra aparecer lá porque "nós-somos-incompetentes-e-imbecis-então-estamos-desmentindo-coisas-e-jogando-a-responsabilidade-em-cima-dos-outros-nossa-que-vida-frustrada", vai à merda! "Ah, mas é melhor que aquelas pessoas estejam lá, achando que o diploma delas vale algua coisa, do que fazendo merda por aí." Aaaaaahh, não é melhor não! Elas têm que se tocar e fazer algo que não envolva
o futuro de outras pessoas de uma forma tão importante! Vai fazer algo mais individual, e não sair dando aulas sendo que você é um merda! Se o Galeno foi mesmo médico do imperador Marco Aurélio, aí provavelmente viu entranhas humanas nas batalhas de gladiadores em Roma e muitos dos estudos dele se devem a isso, quer dizer que foi "bom" aquelas pessoas terem morrido? Ah, muita coisa do corpo só se sabe graças a coisas muuuuuuuuuito macabras, com certeza... Opa! Chegou o meu livroooooooooooooooooo! Hahahahahaha, que delícia! Engraçado... Tô de férias, mas querendo estudar... Isso só prova que a minha teoria de que eu só tinha que mudar o foco do cursinho tava certa. Porque não é possível, eu me sinto mal querendo estudar nas férias. Mas também, eu já tinha tido três semanas de aula no Mackenzie... Sacanagem parar agora e voltar só dia 18. Tudo bem, não preciso estudar doentiamente, mas um pouco por dia, pra não perder o costume (até porque, cursinho só é bem aproveitado se deixa esse costume na gente. Da lousa fica muito pouco). Acho que vou escrever isso tudo no blog. Assim mesmo. Sem quase nenhum planejamento e tudo embolado, sem parágrafos, do jeitinho caótico que a mente é. O ideal seria escrever aqueles pensamentos retardados de quando tô quase dormindo, tipo o que o Stephen King fez pra escrever a Torre Negra. Genial. "I don't-wann-to-be-buuuuuried in'a pet   seeeee-ma-ta-ah-ryy... I don't wann-to live MY-LIFE agaaaa-aaa-aain... pan!      pan!      pan!   pan!            pan!      pan!      pan!   pan! hahahaahah, tecladinho genial. O Chorão morreu. Fico mal por quem ele fazia bem. Mas só. Tenho uma teoria, ou hipótese (não vou me apegar a conceitos) de que a disponibilidade das coisas faz toda diferença. Ou seja, tá lá? Vão dar algum valor. Isso vale pra pessoas, livros, ideias... É por isso que se eu fosse o responsável pelo tema da redação de um grande vestibular, proporia algo bem sem-noção. Tipo "com base nos conhecimentos adquiridos durante toda a sua história, faça um texto dissertativo-argumentativo sobre miojo." hahahaha seria sensacional. O miojo tá lá, exposto pra milhares de mentes intelecto-insanas, e que agora dependem do miojo. Iam sair milhares de redações de 30 linhas, por que não? Tudo porque o miojo simplesmente está lá. Mas acho que vou escrever sobre isso num outro post.

Conta até dez, de trás pra frente.


- Pronto pra anestesia?
- Hahaha, pra dormir tô sempre pronto, doutor.
- Viu como é fácil? Hahaha. Ótimo. Conta até dez, de trás pra frente.
- Tá faltando coisa aí, doutor.
- Como assim?
- Eu não posso fazer o que o senhor tá me pedindo, a não ser que me diga mais um dado.
- Continuo sem entender.
- Ué, se eu tenho que contar até dez, mas de trás pra frente... Posso começar de infinitos números da minha escolha, a não ser que o senhor diga qual é...
Pra restringir esse infinito de possibilidades, sabe?
- Mas o que...
- Se o senhor dissesse pra contar até 10 e só, ficaria subentendido que eu tenho que começar do zero...
- Então vamos fazer assim...
- ...ou do um. Acho que não faria muito sentido começar contando do zero, né? É um número meio encrencado aí... Deu confusão com a igreja quando surgiu...
- Porque então não fica subentendido também o que eu quis dizer?
- Porque começando do zero - ou melhor, do um - as possibilidades estão dentro do contexto... Digo, a anestesia não vai demorar um infinito pra fazer efeito, certo? Já do jeito que o senhor disse, não fica nada preciso.
- Se você sabe que o contexto influencia, deve imaginar que você dificilmente vai chegar no dez, certo?
- Depende de que número eu começar. Até porque se eu sei o contexto, posso começar do doze, por exemplo...
- Mas...
- ...mas aí eu poderia chegar no dez e não saberia mais o que fazer.
- MAS VOCÊ VAI COMEÇAR DO UM!
- Calma, doutor! Mas isso não é o que o senhor disse...
- COMEÇA DE ONDE QUISER ENTÃO!
- Calma, calma. Já sei! Se eu considerar que o subentendido era começar do um, então eu teria que contar dez números. Então é só eu jogar dez números além do 10, pra que eu possa contar até dez, só que de trás pra frente! Contexto é tudo, hein doutor...
- VAI COMEÇAR DE QUAL ENTÃO?!
- Vinte...
- COMEÇA.
- Vinte, dezenhhhffffrrhhh...
E o paciente dormiu.
- Babaca.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Disfarce ridículo


Fui resolver um problema com o plano do meu celular. Liguei pra operadora, e fui seguindo as instruções de uma gravação.
Isso já é um tanto estranho... Um software se fazendo de gente pra interagir com você, mas pensando melhor é tão comum que se eu fosse listar as coisas que seguem a mesma lógica iria me irritar à toa. Vou ficar mais um pouco com essa loucurinha disfarçada de civilização.
Eu já tinha passado por várias etapas do fluxograma se fazendo de conversa, até me exigirem um protocolo que - óbvio - eu não sabia da existência. Aí fiz aquele silêncio sem digitações de quem perde a argumentação. E ouço a seguinte frase:
"Hm... esse protocolo não foi encontrado."
A situação ilógica de eu não ter digitado nada e terem afirmado com toda serenidade que eu digitei algo... Não foi isso me incomodou. Essa é a loucurinha. O que me incomodou foi essa sutil tentativa de um software se aproximar de mim, se achando algo que não é. Que é esse "hm..."? Isso é coisa de gente! Isso
é uma reação a um peido, a um diagnóstico preocupante! Cheiro, preocupação! E um software não tem nada disso! Ah, se toca, bicho! Quer o que com esse "hm..."? Mostrar que você tem elementos linguísticos específicos, historicamente e culturalmente construidos pra demonstrar pensamentos? Você nem sabe o que é linguagem! Já foi no médico e ele, vendo o resultado de um exame seu, fazer "hm..."? Já?! Não, claro que não! Já bateu o joelho ou o dedinho do pé numa quina?! Claro que não! Já usou "hmmmmm..." pra iniciar qualquer frase com tom malicioso?! Então tá falando por quê?!
Ah, mas você não é o único...
É só tentar abrir mais de 15 abas no navegador que "ele" vem e "diz":
"Bem, isso foi constrangedor."
"Constrangedor"?! Tem noção de quantas variáveis formam um constrangimento? Aposto que se você um dia sentisse algum, nem saberia! Para com essa tentativa de parecer o que você não é, só pra tentar se aproximar de mim, ou disfarçar que tem uma tomada no seu rabo. É, rabo! Não quer se humanizar? Então comece tendo um rabo! Ah, mas você, todo sistemático, vai achar que estou falando de uma cauda. Não! Tô falando de um cu! Um cu - e um rabo sendo cu - só têm significado pra mim, que tenho história num meio social! Se quiser se humanizar, comece sendo escatológico, por favor.
Na embalagem daquele suco de laranja com estampa xadrez de toalha de lanchonete, sabe? Tá escrito "Feito com carinho". AAAAAAAAAAHHHHH, NÃO!!!
Que disfarçada que nada! É muito absurdo pra ser um disfarce! É a loucura, nua a crua!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Caguei pro mundo

Faltando uns 5 minutos pra virada do Fim do Mundo (pelo menos o dia, porque a hora eu ouvi falar - sei lá onde - que seria lá pelas 21h) tive vontade de mijar. Aí tive mais um daqueles pensamentos circunstanciais idiotas do tipo "porra, mijando no Fim do Mundo?", e aí me veio mais um pensamento desses: "Eu poderia estar cagando". Ah, isso me trouxe uma pseudossensação de revolução, como nos momentos em que falam 3 frases que "mudariam o mundo", mas logo depois vão até a geladeira, pegar um corpo de iogurte pra ver a novela, pensando se o arroz vai dar pro almoço do dia seguinte.
Seria tão gostoso, autônomo, poderoso, libertador... Cagar durante o Fim do Mundo! Aquela metáfora direta de "tô cagando pro mundo", claro! Que gigantesco botão do "Foda-se"!
Aí eu quis cagar, mas não estava com real vontade! Pensei "eu poderia forçar um pouco". Então percebi que se eu, de fato, sentasse naquela privada pra forçar uma cagada pro mundo naquele momento, não estaria cagando pra ele. Estaria dando atenção a tanta merda (não é trocadilho, mesmo).
E vim escrever esse texto que saiu do nada. Do nada não; de uma cagada pensada. É, esse texto é uma cagada pensada.
Não caguei, mas caguei pro mundo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Aquele momento

Sabe aquele momento único, curtíssimo, em que algo te parece extremamente engraçado? A graça pode ter vários motivos: uma sacada genial, o jeito que foi falado, trejeitos visuais, sons bizarros, piada interna (o que implica num contexto, numa familiaridade sua com aquilo), ou muitas outras coisas que geralmente não conseguimos explicar. Mas acho que já me fiz entender.
Esses momentos, até pouco tempo atrás, terminavam ali mesmo. Na cabeça de quem riu sozinho. No riso coletivo e breve do grupo de amigos durante uma reunião de fim de semana. No máximo, na plateia e na audiência toda daquele programa engraçado. Muitos, muitos risos, mas breves. Tudo acabava ali.
E ainda bem que acabava ali. Porque esse momento é tão mágico, que só acontece naquelas condições. Não tem como acontecer de novo - não na mesma intensidade. Então tem que acabar ali. Só faz sentido acabando ali.
Mas a internet criou uma tendência extremamente irritante sobre isso: não acaba mais ali. É muito engraçado? Que ótimo! Porque todo mundo vai saber, e por mais ínfima que seja, alguma minoria vai achar muito engraçado (isso quando não é realmente a maioria). E na internet, qualquer minoria, se comparada ao grupo de amigos no final de semana, é muita, muita gente. Então aquele seu momento mágico, que acaba ali, chega logo depois pra outra pessoa. Pra você, já acabou... Mas pra ela é algo novo; a magia do momento ainda está ali... Mas pra você já acabou...
Não são mais todos rindo juntos, mas uma fila pra dar risada. Até aí, dependendo do tamanho da fila, tudo bem, é até legal. Mas a internet não conhece moderação. É tudo além do limite. Então aquela piada que um dia foi super genial, agora é aquela criança que já esfregou muito a sua camada de paciência, e dá até pra te ver explodindo por trás do que agora é uma película.
O pior de tudo é que nem dá pra confiar na autenticidade de quem está muito atrás na fila. Porque ali há mais influência dos que riram antes do que influência da própria piada. "Nossa, quanta gente rindo! Deve ser muito bom!", e então aquele sorriso feito de números, que arma uma risada feita de nada.
Aí confundem quantidade com qualidade! Como assim?! Um milhão de pessoas riram de uma piada, não necessariamente porque é genial. A diferença agora é que um milhão de pessoas podem ter acesso à piada. Só isso.
Estão falando tanto que já perdeu a graça? O Kiko chegando no final do episódio do Chaves, rindo muito porque entendeu a piada do começo do episódio já não é tão engraçado assim? Pois é.
Por mais rápida que seja a propagação na internet, aquele meu momento mágico é mais. Bem mais.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Falar bem não tem graça


Ontem eu fiz uma das minhas aparições raras no facebook. Falando mal (sim, não vou aliviar com "crítica negativa", ou algo do tipo, porque "falar mal" implica numa intenção de esculachar. E se divertir com isso). Então lá estava eu falando mal de um comercial. E aí recebei um comentário de que eu precisava relaxar e tal... levei numa boa, até porque foi um amigo quem disse. Até que mais um amigo complementou, brincando que eu estava estressado, e tal. Confesso que parei pra pensar. Mesmo sabendo que era uma brincadeira de ambos, imaginei se estivessem falando sério. Cheguei à conclusão de que minhas aparições no facebook seriam quase todas com o mesmo tom do "falar mal". Claro, com algo que eu ache realmente ruim, e não falar por birra. Mas taí, eu seria esse cara puto, estressado. O estranho é que, de fato, eu me divirto com isso.
Falar mal de tudo? Não, claro que não. Mas de muita coisa... até porque muita, muita coisa é realmente ruim. Seja pra fazer piada (que prefiro), ou pra falar sério.
O comercial, por exemplo. Era ruim. Mesmo. E os outros? Ruins também. Mesmo. Tenho que me esforçar muito pra me lembrar de algum bom, porque sei que existem. Isso me leva a cometer gafes, como criticar publicitários. E aí penso "que injusto isso, tem publicitário por aí que faz muito juz à profissão..." mas se eu me apegar muito a esses detalhes, não vou falar nada nunca. E sei disso por experiência própria. Estou cagando pros publicitários? claro que não. Só pros que fazem comerciais, e comerciais ruins.
Indo além dos comerciais, penso na programação da TV. E não tem como, eu falo mal mesmo, quando estou assistindo, infinitos comentários sarcásticos surgem na minha mente... E quando paro pra analisar se é birra... não é. Já fiz isso várias vezes, e é de verdade. Por incrível que pareça, não é exagero eu achar quase tudo ruim, por que quase tudo é, mesmo, ruim! O meu senso de exagero ainda funciona. Ou fico puto e faço piada, ou fico puto e só. Mas nesse caso, é muito mais desgastante. Na piada eu realmente me divirto, sendo sarcástico ou achando defeitos.
Eu falo mal dos programas, dos apresentadores, dos comerciais, mas de um jeito divertido pra mim. Se eu ficar realmente puto, acabo falando que milhões de brasileiros assitem muita merda, e acabam ficando imbecis, e que isso é um problema em escala nacional, que puxa muitos outros... Mas isso é desgastante e
não estou fazendo nada a respeito também, então esse tom não adianta nada.
Eu falo mal sim. Com intenção, e com divertimento. Mas se chegar na birra, eu paro. Se me desgastar, e de nada adiantar, eu paro.
Só preciso chegar à conclusão se algo é, pra mim, re-al-men-te ruim.
Aí é sensacional.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ponderando


Os lacres de iogurte, danones, o fundo mais durinho da gelatina e a borda em filete da panela de sopa, e outras coisas do tipo, são verdadeiros extremistas. É oito-oitenta: se você não encara, é frescura; se encara, é síndrome de pedreiro.
Eu? Lambo os lacres e como o fundo da gelatina. Borda de panela de sopa... só não encaro a de feijão, se já estiver meio passado... Acho que tô mais pra pedreiro.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Facebook

Eu sei que tudo tem o seu lado bom e o ruim, mas o lado ruim sempre rende mais. Principalmente no facebook. O lado bom daquele lugar, as boas intenções, tudo fica escondido por trás de uma montanha de pessoas, uma subindo sobre a outra, pra ver quem chama mais atenção de um jeito hipocritamente desesperado.
Às vezes me vem aquele discursinho de que "cada um é diferente, e todos devem ser, se não aceitos, tolerados, e se não tolerados, respeitados, blá-blá-blá... mas aquele lugar desafia a minha capacidade de seguir essa filosofia! Eu até já escrevi "discursinho", e no mau-sentido!
E os estereótipos? Cada um falando sempre da mesma coisa, sem contar as situações em que todos falam da mesma coisa! Um monte de mesmice insuportável (desculpa aí o pleonasmo), uma masturbação de ego eterna, uma falsa necessidade (muito medo de que tenha se tornado verdadeira) de mostrar tudo a todos, mas daquele jeito em que não se criou coragem pra dizer certas coisas. Então o que é dito? O que não vai chocar ninguém, o que todo mundo pensa, quer, imagina, o mesmo, o mesmo, o mesmo!


- Você que sempre fala de animais, tipo a "Luisa Mel" do facebook: a sua intenção é ótima, mas que tipo de reação você espera das pessoas ao postar algo como "sou contra o mal-trato de animais", com a foto de um filhote de labrador? Pois eu penso "Ufa, que bom, porque se você não falasse nada, nunca te levaria pro Ibirapuera com medo de que você ateasse óleo no lago pra queimar os patos (leia-se pato/ganso/cisne/foda-se), chutasse as pombas, e atirasse chumbinho nos passarinhos! Ainda bem que você me deu essa informação tão incomum, fiquei realmente surpreso! Me fez parar pra pensar!
E aí vem um monte de gente compartilhando da mesma opinião, porque afinal, elas pre-ci-sam! Até porque, seria muito bizarro não saberem que eu não maltrato animais, certo? E eu começo uma discussão a respeito? Claro que não, só preciso falar pra me sentir "interagindo", "participando", "socializando". Já tá bom assim, pra que mais do que isso, não é mesmo?


- Você que narra tudo, tudo, tudo: "Saindo pra um rolê com os amigos" é realmente de um significado revolucionário! Me pergunto o que te leva, pessoa-que-faz-questão-que-todos-saibam-que-você-tá-cagando-verde-e-mole-olhem-só pensa ao postar essas coisas. É pra mostrar pra todo mundo que a sua vida social é saudável? Mas quem se importa com isso são só algumas pessoas que você sabe muito bem quem são. O meu palpite é que não é só isso. Pode falar que tem um "olha só seu bando de fudido na firma até tarde no final de semana, como eu sou foda e tô curtindo a vida!" por trás, pode falar! Que o seu cotidiano é tão doente, que qualquer testemunha que "curta" você saindo de casa pra cumprir a sua obrigação de não ter que cumprir uma obrigação, vale mais que isso!
Você posta frases mostrando que a sua semana vai ser ou foi sofrida (só a sua, claro), e de alguma forma misteriosa, a cada meia hora, continua postando coisas que vão mudar a minha e a sua vida. Como assim? Que sofrimento todo é esse? Acho que deve ser tão, mas tão difícil o seu dia-a-dia, que é uma excelente alternativa descansar no facebook a cada meia hora... Entendi! Linda a foto do seu prato de comida exótica semi-vazio. Agora... sentiu de verdade o gosto da comida?


- Você que só fala de religião: Aqui se encaixam não só os que são religiosos, mas aqueles que negam uma ou qualquer religião também. Religião é o tipo de assunto que só dá certo discutir com a mente aberta a sensos comuns ou absurdos, muito silêncio pensativo, pausas, atenção, etc. Mas você do facebook não faz nada disso. Você gosta de coisas curtas, prontas, definitivas. São pensamentos tão bonitos, não é? Pra eu não ficar muito nervoso, fica aqui o seguinte: pense o que quiser, ache o que quiser, mas não você não se tornará melhor mostrando isso pros outros.


- Você que gosta de frases de impacto: Acho que isso é um dos maus do formato do facebook.
Não há tempo nem espaço pra discussões verdadeiras a respeito de nada, porque logo logo vem mais uns 15 posts por aí, e você tem que curtir e comentar e se fazer presente e todo social e opinativo. O post em questão há 30 segundos atrás é agora o décimo da lista, e o mundo gira (rápido demais). Então esses pensamentos curtos (e curtos) são o ideal. Falou, tá falado, resume tudo o que você pensa, sente e faz. É você, e as pessoas têm que te ver!
Isso só me incomoda, convivo com isso. Mas o que me emputece mesmo não é o que você pensa ou deixa de pensar, mas a sua maldita mania de postar coisas que definem em três linhas as pessoas, a Natureza, o Universo, e considerar que todos vão olhar, se maravilhar, te aplaudir e você-é-foda-sensacional! Porque se há pelo menos uma coisa unânime em quem posta algo, é o desejo de ser visto e ter a comprovação disso. Porquê se interessaram ou se isso tem consequências, não importa. Quem "curtiu", foi pelo mesmo motivo que eu, claro. O "curtir" acabou se tornando um meio de unificar discussões e opiniões, levar as pessoas a
conversarem numa mesma direção, a partir de um mesmo ponto, ou até anular uma possível discussão, porque o post é tão "bom" que só se comenta "falou tudo!",
"é isso aí!", ou qualquer merda do tipo.
Cada frase de impacto que você aí posta exige muita atenção, pensamento, discussão, desacordo, inconformidade, incômodo e paciência pra ser digerida e incorporada. Então não faz sentido você ficar botando frases a cada meia hora, que te ridiculariza, e reduz toda a reputação do que você faz a uma mera crítica ruim no verso de um livro de auto-ajuda! Isso se você tem noção disso, porque às vezes me parece que não tem. Quer mostrar profundidade nas coisas que você posta? Então para com tudo isso e faz diferente!


- Você que curte-comenta-compartilha tudo: Por quê? Só me explica, por favor. Eu fico pensando que seja uma oportunidade de você se sentir sociável, ou por algum motivo você está muito, muito carente e essa é a sua forma de demonstrar isso, sei lá. Mas devo te avisar que muita gente pode te bloquear a qualquer momento, inclusive eu.


- Você que gosta de fazer guerrinhas: "Homem X Mulher", "Rock X Funk", "Time X Time", "Evolução X Criacionismo", "Vai pra puta que pariu X Você é genial mesmo", etc.
Você vem definindo tudo, dizendo que é o fodão, e fica por isso mesmo? É assim que você quer começar uma conversa? Acho que não, porque fica bem claro que você é intolerante (e veja só como eu fico intolerante com a sua intolerância!!!), fazendo comparações entre o que você gosta e o que você julga ser uma merda e foda-se a opinião dos outros.
Tá fazendo guerra de sexos? Vai se resolver, se relacionar direito, fala logo que você é corno/corna, falsas-justificativas pra explicar porque você traiu, que o seu cupido não é cego, que você reconhece que a cegueira é sua, mas para de definir as pessoas a seu favor, pelo amor de deus!
Sim, existem músicas abomináveis pra você que outras pessoas amam. E você não pode fazer nada a respeito. Não desse jeito aí.
Gosta de futebol? Que bom! Alguém não gosta do seu time? E daí? Sim, é só isso. E daí?

Se eu continuar, não vou acabar tão cedo.
O Facebook tem seu lado bom? Sim, mas o lado ruim abusa e me diverte às vezes, confesso.
O problema é do que falam? Não, é da mesmice e da frequência infernal com que falam. E é isso que torna o que falam infernal também.
Porquê eu ainda estou lá? Não sei. Acho que de certa forma é um exercício de tolerância e que faço questão (ainda).
Exagerei? Foda-se.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Balança da Vida

Se eu puser esse ano na Balança da minha Vida, todos os meus problemas de hoje, que tantas vezes parecem tão grandes e pesados, se tornam ínfimos e leves. Porque apesar de tudo - e não é fácil chegar no apesar de tudo - esse foi o melhor ano da minha Vida. Poderia ser o pior, poderia, mas não.


Com Você eu tenho o poder de chegar a essa conclusão.
O melhor ano da minha Vida.
Até então.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Que seja só ao volante

Primeira aula na auto-escola:

"Assim que você se sentar, mesmo que esteja tudo certinho pra você, mexa no banco e nos espelhos pra mostrar que você lembrou."

Então me pergunto quantas pessoas - ou pior ainda - em quantos momentos as pessoas sentam... e ficam lá.
Não saem da zona de conforto... (o banco já está bom, pra que mexer?)
Não se atentam mais... (os espelhos também, nem olho mais)
Não há mais porquês... (meus pés já vão sozinhos)
Não há mais foco algum... (as mãos também)

"Vai chegar uma hora que você nem vai perceber mais. É automático!"
"E no trânsito mesmo o que acaba acontecendo é que a gente dirige pros outros muitas vezes."


E tudo vai perdendo o sentido... (os espelhos não são pra eu me olhar, mas pra que eu olhe - antes e acima de tudo - pros outros)

E lá estão... dirigindo suas vidas por aí, sem mexerem no banco pra lembrarem de si mesmos, só com a preocupação de chegar ao ponto morto (e poe "morto" nisso).
Já "deixaram morrer" mas não faz mal... nem perceberam, não é mesmo?


Que eu mexa muito no meu banco, perceba, atente às coisas e aos processos.
Porque incomoda.
Mas vale a pena.

domingo, 11 de setembro de 2011

Muito obrigado...

... pelo "desde então", pelo "agora", e pelo "ainda".

Então tá então, bixo ?
Beijo beijo beijo !!!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Autodidata em literatura

É de manhã
É de madrugada
É de manhã
Não sei mais de nada
É de manhã

 

(É de Manhã - Caetano Veloso)

- Se analisarmos atentamente o excerto anterior - até porque só temos isso até aqui (¬¬) -, perceberemos uma gradação interessante.
"Como um todo, há uma relativa inconsistência contextual do eu-poemático em relação ao extrínseco, dado que a impressão temporal apresentada não tem, explicitamente, um expediente sensorial. Não pelo pipitar sincopado dos pássaros, pela pantomima aveludada que os ventos imprimem sobre a vegetação que fulgi à luz do sol brotando da siririca das águas, na linha de um horizonte efluvioso... Ou pelo piscar do fogo que perpassa a jarra do leite matinal, perfunctório. Mas porque, simplesmente, 'é de manhã'.
"E então, nos dois versos seguintes, o eu-lírico materializa a anterior indistinção, justificando-a à imagem de seu universo interior. Dessa forma, com a intercalação da 'madrugada' entre as manhãs, percebemos o sensório confuso; uma consternação de limites, que atinge o pandemônio, o rebuliço, no quarto verso.
"Assim, o trecho tange o ultrarromantismo, fazendo menção ao desinteresse e apresenta-se egocêntrico, pessimista, lembrando Álvarez de Azevedo no poema 'Idéias íntimas', quando diz 'Os meus olhos ardentes se escurecem / E no cérebro passam delirosos / Assomos de poesia...'.
"Ou podemos citar até mesmo Charles Lutwidge Dodgson, que no pseudônimo de Lewis Carroll, descreve Alice entrando pela toca do coelho numa queda longa por entre luzes e objetos flutuantes... Grande metáfora da passagem para o inconsciente...
"Concluímos então a natureza onírica ou até mesmo etílica das divagações do eu-lírico, e...
- Felipe...
- Oi ?
- Para.
- Mas eu...
- Sssshhhh !
- Ma...
- Nãnãnãnãnãnã !!
- ...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não acerto uma

Quase meia-noite. Msn. Uma amiga vem e diz "quarta-feira às 14h no Starbucks da Alameda Santos". Beleza. Mas pra que falar "quarta-feira" ? Que estranho...
Já já vem outra amiga e diz a mesma coisa. Mas já era mais ou menos meia-noite ! Pra que falar "quarta-feira" ? Bom... Deixa pra lá.
No dia seguinte acordei meio tarde. Tá, acordei na hora que era pra eu estar saindo. É o tipo de situação que se alguém liga a gente fala "Tô chegando já".
Tomei banho e me arrumei rápido, muito rápido, e mesmo assim ia chegar atrasado. Pelo menos meia hora atrasado. E nessas cirscunstâncias tudo é suficiente pra emputecer. É, aquela velhinha andando devagarzinho na sua frente não é bonitinha mais. Bem por aí.
Cheguei lá... Fui entrando e olhando... Nada. Ninguém. (Não levem isso literalmente porque vai parecer que entrei num buraco negro, o que, por sinal, não deve ser uma experiência muito agradável ou que dê tempo pra se ter alguma opinião).
Aí fui até o fundo e voltei. "Bom, acho que todo mundo atrasou mais do que eu" e fui sentar. E conforme o tempo passa, vão passando pela cabeça coisas completamente sem sentido, como uma forma de não ver a ficha caindo. "Será que tem algum piso abaixo desse ?", "Será que tem algum andar lá em cima ? Mas eu vi o telhado lá de fora, não é mais alto do que isso..."
Esperei uma hora... Porra, ninguém veio ! Mas dessa vez eu estou no lugar certo ! Bom, não perdi viagem e acabei indo pra uns lugares ali perto ver outras coisas. Lá pelas 19h, no portão em frente de casa, eu contei pro meu pai o que houve. "Elas falavam 'quarta-feira' mas era só falar 'amanhã', ainda mais porque já era meia-noite." "Mas Felipe... Hoje é terça." (...)


Shopping. Praça de alimentação. Fui até uma franquia lá, pensei "Onde eu pego o prato pra fazer a comida ?" e fui procurando, procurando, procurando e cheguei na caixa pra perguntar. Ela fez uma cara de que estava segurando alguma risada, e já pensei se eu tava todo encatarrado na cara. "Moço, aqui é otra franquia..." (...)


Um amigo me liga:
- Opa, beleza ?
- Beleza, e aí ?
- Beleza.
- Ow, imagina se eu atendesse com uma voz de velha, dizendo "Cemitério Vila Mariana, boa tarde." ? HAHAHAHAHA !
- Então... Meus pais acabaram de voltar de lá porque um vizinho nosso morreu...
- Hmm...
(...)


No telefone de novo, com o mesmo amigo:
(...)
- Sabe aquela "Eu sei que vou te amar, por toda minha vida..." ?
- Sei, do Tom.
- Não... é do Roberto Carlos...
- Eu sempre confundo essa com aquela que tocou na novela... "Quando a luz dos olhos meus..." que era uma versão do Tom e da Elis.
- Não era a Elis... Era a Miúcha...
- Ah é ? Irmã do Toquinho.
- Não... Ela é irmã do Chico Buarque...
(...)


Se eu continuar fazendo essas merdas, imagina na hora de dar uma cantada:
- Chega falando alguma coisa que provavelmente ela responda "nossa, comigo também é assim !", porque aí dá pra começar uma conversa legal. Mas trate de escolher algo infalível."
(...)
- Não deu certo. Mas era infalível !!! Como não deu certo ?
- Ué, mas então o que você falou pra ela ?
- "Meu namorado nunca fecha a tampa do vaso."


P.S.: "Eu Sei Que Vou Te Amar" é do Tom Jobim mesmo. Ou seja, não foi um combo ! (Como se isso aliviasse alguma coisa)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Catarro

Eu estava na plataforma de uma estação de metrô. Nesse frio até que é um bom lugar pra se ficar, tirando o fato de que uma plataforma de metrô não foi feita pra se ficar, mas pra deixá-la lá lálálá... lálá. Se bem que pensando por aí, calçadas não foram feitas como um espaço pra se encher de mesas e cadeiras, os elementos imprescindíveis juntos da falação agitada e alta das happy hours; o Google Earth não foi feito pra você achar a sua casa (a felicidade mais efêmera que existe), por mais que você - teoricamente - já saiba onde fica há tempos; enfim... Vem da criatividade achar outras funções pras coisas e eu ficaria lá na estação numa boa, mas tinha compromisso.
O trem chegou. Até que não estava muito cheio, mas tive que ficar de pé. Sentada na cadeira bem diante de mim, uma senhora.
Logo veio aquele planejamento rápido de quem sabe que o trem vai enchendo conforme passam as estações: onde ficar pra que eu tenha um jeito relativamente fácil de ter pra onde ir depois. Decidi ficar ali mesmo.
Então lembrei que esqueci de pôr um punhado de papel higiênico no bolso de trás da calça.
Aquele catarro vinha me incomodando há uns dias. Ali estava bem naquele estágio em que chego a sentir inveja da respiração regular dos outros e saudades da minha. Mas não era algo pleno, porque ainda me sobrava uma narina - numa luta quase injusta de força gravitacional versus status socio-higiênico - mas ainda uma.
Resfriado. Hepatite, caxumba, sarampo, catapora, hidrofobia, dengue, febre amarela, poliomielite, rubéola, meningite, encefalite, herpes, pneumonia ? Não. Resfriado ? Catarro ? Sim. E agora estou com o nariz e peito cheios desse quase-paradoxo imunológico. Só porque tem muito e não incomoda tanto é que tá em todo lugar, é isso ? Veja bem qual o tamanho do "incômodo" nessa frase, porque as pessoas estão entrando no trem, como eu previa, e tenho que tirar a mochila das costas pra dar mais espaço, além de ter que me segurar nessa barra. Agora o incômodo do catarro aumentou um pouquinho. Ah... @#$%& tem a véia sentada aqui na frente... E ELA TÁ OLHANDO !!!
Agora o incômodo atingiu um tamanho colossal, um patamar etéreo. Porque não se trata mais de algo meu comigo mesmo, mas envolve mais alguém, e isso significa que não tenho controle absolutamente nenhum da situação. Mas vou treinar um anto-enganozinho até chegar a minha estação. E a véia não para de olhar. Claro que não... Tem uma visão privilegiadíssima de uma parte de mim que eu não vejo e nem quero ver, e está fazendo questão que vê. Talvez seja por isso que estou tão puto com a senhora, não é mesmo ? Ela me vê, e eu não posso vê-la porque teria que olhar pra baixo, e seria o mesmo que dar bônus de força à gravidade contra a minha única narina atual, que perderia com brio (com todos os sentidos que essa palavra pode assumir). Estou imobilizado pelas pessoas à minha volta, pela minha mochila e pelo desejo de não cair, que ocupa minha outra mão.
Como será que está meu catarro ? Claro que a janela de Murphy diante de mim, por definição, está aberta e me impede de ver.
No momento, percebo que minha única narina está cedendo, porque minhas vias nasais são uma grande obstrução. Minha inspiração é puro catarro. Por extensão, todo esse ar a minha volta é puro catarro. Então me vejo nesse metrô... Túnel viscoso, trem-perdigoto nessa viagem-espirro. Velha maldita.
Não sei se pelo calor bacanal de tanta gente junta, meu alien vai se soltando, todo maroto. E é nessa hora que o problema ganha abrangência: vai chegar no lábio ou não ? Pelo menos pra mim, essa situação é a mais injusta, porque só é percebida quando já aconteceu. O único que não percebe o poder transgressor do catarro é o dono dele. Se estou tão preocupado assim, meu nariz ainda é o local da narrativa.
Minha senhora, tá olhando o que ? O catarro não escorreu ainda. Ainda ! Eu disse ainda !! Essa palavra não existe aqui, entendeu ?! Assim como o catarro escorrendo. Não existe. E se a senhora dá tanta atenção a algo bem diante de você, que não existe, a senhora é LOUCA !!! ESQUIZOFRÊNICA !!! Agora ponha o pé no chão, que vou te perguntar: nunca viu não ? Catarro ? Nunca peidou na vida, minha senhora ? Não me venha com essa cara de "ai-que-grosseria" porque pela sua idade, já peidou mais que o triplo que eu na vida !
Mas eu entendo você. Tanto que se estivéssemos de lugares trocados, ah... Eu não pararia de olhar nunca, e torceria a favor da sucumbência dessa sua blusa de pele, calça de couro, botas, brincos, maquiagem, perfume e cabelos, esse conjunto que custa a sua auto-estima, o olho da cara, horas do seu dia e a sua ilusão de segurança diante dos outros. Tudo sendo ofuscado pelo brilho denso e visceral de uma cachoeira selvagem e primitiva avançando impassível pro chão-mar onde jás tantas outras. Ah, sim !!! PARA DE OLHAR, VELHA FILHA-DA-PUTA !!! Se não eu escarro todas as gotas de catarro esquizofrênico em cima de você ! Viu como tenho certo poder na situação ? Fica pianinha aí...
E pela milésima vez curvo minha cabeça pra cima, dando um lugar mais privilegiado à velha nessa plateia que vê meu show. Acho que o primeiro a dar tanta atenção ao céu estava com um resfriado dos meus.
Enfim chega a minha estação. Me liberto dessa prisão, adeussenhora, e já a caminho do lixo estou na iminência de desfazer-me brusco em ruídos e...

 Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

 Concordo com Drummond, mas devo dizer que certas coisas são pontuais, insubstituíveis:

 Catarro, catarro, catarro - o visco radiante
que me dá, pelo espirro, a explicação do mundo.


(Conto baseado no livro Tanto Faz - texto 11; de Reinaldo Moraes)

sábado, 2 de abril de 2011

O ponto de vista da conveniência

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem
Essa moça tá diferente (...)
Essa moça é a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora está só na dela
Botando só pra quebrar
Mas o tempo vai (...)
 
                              (Essa moça tá diferente; Chico Buarque de Holanda)
 
Por favor, alguém avise Chico Buarque que ele tomou um pé na bunda.